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Coração

"O coração é uma arte difícil."

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J. A. Dionísio;

Telhados de Vidro


A etimologia da palavra “coração” como símbolo revela sua universalidade.

“A raiz indo-européia krd ou kered deriva de kardia, em grego; que se desenvolve para cardíaco, cardiograma, endocárdio, pericárdio e outros termos médicos. Cor, em latim desenvolve-se para cordial, acordar, discordar, recordar, recurso, coragem e misericórdia. Sua terminação pelo sufixo aumentativo traz a idéia de reforço. Muitas autoridades associam “credo” com esta raiz latina cor, que deriva também para credencial, acreditar, crédito, credulidade, recrear etc. E, finalmente, heorte, em anglo-saxão, que se desenvolve para heart, hearten, hearty, heartless etc”.

Podemos concluir, do acima exposto, que a raiz krd expressa principalmente a idéia de centro, reforçada, em português, pelo sufixo ‘ção’. A expressão desse centro aparece claramente em caroço/coroço. Seus derivados também indicam formas de conhecimento, como nas palavras: credo, acreditar e crédito; ou de comportamento, como em cordialidade e misericórdia.

Lembrar com o coração é decorar ou recordar. Brigar com ousadia e intrepidez é brigar junto com ele, isto é, com coragem. Ficar sem ele é ficar descorçoado, sem centro e sem direção. Chegar a soluções conjuntas é unir os corações, como em concordar, chegar a um acordo. Ser prudente ou sensato é ser cordato, assim como resolver ou recobrar os sentidos é acordar.



“Se os olhos vêem, se as orelhas entendem e se o nariz respira,

eles conduzem ao coração aquilo que recolheram e ele organiza as decisões.

A língua, então, as anuncia”.

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(A. Erman, La religion des egyptiens, Paris, Payot, 1952, p.118)



Na cultura e religião egípcias, o coração é símbolo fundamental. Está presente nas orações, nos mitos cosmogônicos e nos rituais funerários como centro da vida, lugar da inteligência, da vontade e da consciência moral. Na teologia de Memphis (aproximadamente 2700 a.C) Ptah, deus da criação, a fim de dar materialidade à força do verbo criador, pensou no universo com o coração. Seu coração é o lugar da atividade criativa e da imaginação. De início, manifestou-se por meio do logos (verbo) mas somente com o coração a criação tornou-se real. O Egito politeísta passa a ter somente o sol como maior divindade a partir da dinastia de Amom-Rê (XII), divindade solar suprema. O deus sol habita o coração, cria o universo e nele são depositadas esperanças de cura e salvação.

O curso do sol representa o modelo do destino do homem: descida à escuridão, morte e ressurreição. A evolução e ascensão da alma, e sua transformação pela purificação, consistem num segundo nascimento para a eternidade única e imutável. Os egípcios estavam convencidos de que morte e vida fazem parte do mesmo processo contínuo e complementar. A morte só é real para os que falham no processo de julgamento. Este julgamento era conhecido como o processo de “pesagem do coração”. Para os egípcios o coração (ou ab) ligava-se intimamente à alma. Do coração da mãe descia o sangue para o útero onde a criança era gerada; por isso os filhos eram chamados de “sangue do coração”. Era considerado o órgão mais importante, por isso, quando ocorria a mumificação era o único órgão conservado no corpo; era o centro dos pensamentos bons e ruins, centro da vida. Com o objetivo de ajudar a alma do morto na viagem pelo desconhecido, com o passar de várias dinastias, alguns textos formaram o que ficou conhecido como Livro dos Mortos deixado junto aos corpos dos falecidos e recitado pelos sacerdotes durante o processo de mumificação em várias cerimônias a fim de que os mortos pudessem reencontrar a alma e usar seu corpo novamente.


Segue o capítulo XXVII, no qual Ani suplica ao deus para que seu coração não lhe seja arrebatado e fique para sempre no submundo. No papiro de Amen-Hetep, referente ao mesmo capítulo, lemos:



Meu coração está comigo, e nunca deverá acontecer de ele ser levado embora. Eu sou o senhor dos corações, o matador do coração. Eu vivo na justiça e na verdade, e é nelas que meu coração habita. Sou Hórus, um coração puro dentro de um corpo puro. Vivo pela minha palavra e meu coração assim vive. Não se permita que meu coração seja levado ou que seja ferido oi cortado por me ter sido arrancado. Seja-me permitido existir no corpo de meu pai Seb e no corpo de mãe Nut. Não fiz mal contra os deuses; nem pequei por orgulho.


(Sri E. A. Wallis Budge, The Egypctian Book of the Dead (The Papyrus of Ani), 1967, p.308)


O coração participa no hinduísmo em diversos tipos de meditação e práticas; é com frequência encontrado nos textos religiosos. É considerado lugar da “consciência pura”, de Shiva, Brahman, Krisna, o deus absoluto (não-eu). Está além do tempo e do espaço, mas pode posicionar-se no coração físico ou um pouco mais à direita do centro, por meio do conhecimento. Para os sábios hindus, a consciência é o coração do hrdayam (hrd = coração + ayam = eu sou), o centro daquilo que somos realmente (Ramana Maharshi, The Spiritual Teaching of Ramana Mararshi, Boston, Shambhala, 1988) entre o centro e a totalidade.

Nos textos sagrados as divindades habitam o coração. A meta no processo de conhecimento é descobrir Krishna, que está situado no coração dos seres vivos. Nos textos sagrados também é possível encontrar a expressão “caverna do coração”, no sentido de lugar oculto. O desenvolvimento espiritual acontece a partir deste ponto oculto e secreto, considerado o local do “segundo nascimento”. Para os hindus, esse simbolismo para ter sentido, deve resultar da experiência corpórea. Por fim, essa experiência, entre coração e sentido superior, decorre de anos de prática da meditação. Essa busca é conhecida como “conhecimento do coração” ou “conhecimento da caverna”: “Há esta cidade de Brahman [o corpo] e nela o palácio, o pequeno lótus do coração, e nele o pequeno éter. O que existe dentro desse pequeno éter é o que precisa ser procurado, é o que precisa ser compreendido. E se lhe perguntarem: ‘ em relação àquela cidade de Brahman, e o palácio nela, isto é, o pequeno éter dentro do coração, que há nela que precisa ser procurado ou compreendido?’ Então ele deve responder: ‘tão grande quanto o éter é assim também o éter dentro do coração. Tanto o céu quanto a terra, tanto o fogo como o ar, tanto o sol quanto a lua, tanto o relâmpago quanto as estrelas estão contidos dentro dele, e o que quer que esteja nele aqui no mundo, e o que quer que não esteja, tudo está contido dentro dele.’” (Chhãndogya Upanishad (8.1.2) in The Upanishads, vol.1, org. por Max Müller, 1962).

O coração, portanto, é como semente, mas com o potencial do vir-a-ser. É ponto de origem e de retorno.

Para os hindus o éter é uma substância que tudo penetra e produz. É um símbolo de Brahman, o Espírito Divino que se expande e retrai representando todo o processo de vida. Segundo algumas passagens dos Upanishadas, o conhecimento que vem do coração é realmente o verdadeiro, pois capacita o homem a passar do mundo ilusório para o real. Contudo, para que se siga o caminho do coração, é necessário clareá-lo por meio da renúncia e sacrifício para que ele se torne um espelho mais acurado do self. O desejo de união com o self, é a meta, o que leva a imortalidade. O coração carnal e o espiritual fundem-se num só corpo na caverna do coração.


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O deus do amor, personificado em Madana está ligado à realização dos desejos e ao desejo de felicidade. A pedido do deus Indra, rei dos deuses, Madana, ilustrado de modo jovem e forte com arco e flechas, vai até Shiva que há tempos se encontra no alto do Himalaia absorto em suas meditações. Por esses tempos o universo todo sofria, porquanto o deus da misericórdia havia se esquecido de sua missão de libertar os homens do sofrimento. Era necessário que se unisse a Shakti, deusa da existência, para que sua missão fosse cumprida. Madana foi convocada para que por meio de suas cinco flechas de rosas celestiais despertasse o coração de Shiva. No exato momento em que seu coração foi atingido pelas rosas, seus olhos se abriram e ele viu sua esposa Shakti; contudo, reduziu Madana a cinzas. A viúva de Madana, Rati, o desejo, pediu a Shiva que seu marido lhe fosse restituído. Seu pedido foi atendido. Porém, Madana voltou sob a forma de imagem e por isso, Rati (o desejo) procura o amor por todo o universo, sem nunca conseguir encontrá-lo. Madana, também chamado Kama, é uma forma de Ágni, deus do fogo, nascido das águas, fonte de vida e ligado à união e à criação. Como Eros, é o primeiro dos deuses a nascer, dando a toda a criação o tom primaveril. Além de carregar arco e flechas, enlaça de longe a vítima e puxa-a para perto com um gancho. No plano corporal, opera por meio do sexo; no plano superior, é a vontade do Criador (Heinrich Zimmer, Philosophies of Índia, 1951).

Para os hindus, quando se é atingido pelas flechas e aprisionado pelo desejo, a pessoa se torna “esquecida de si mesma” e é condenada a sucessivas reencarnações. Somente as flechas no coração de Shiva, possibilitaram sua união à existência, dando forma e matéria a seus pensamentos. Se isso não acontecesse, estaria perdido em seus devaneios.


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No século XVII, o coração de Maria, mãe de Cristo, começou a ser venerado por São João Eudes, fundador da Congregação de Jesus e Maria; ensinava que o coração de Maria levava os fiéis para perto de Deus, uma vez que Maria sempre podia interceder por nós junto ao filho. (V.V.A.A., Um coração para sempre, op. cit., p.33). A partir do século XVII, com Blaise Pascal, filósofo e matemático francês, o coração é reafirmado como centro das resoluções e vontades, único meio para se chegar a Deus, popularizando a frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Portanto, “(...) a verdade e a divindade só podem ser descobertas pelo conhecimento do coração.”

A figura do coração com raios retilíneos, claros, de aspecto luminoso, é chamada por R. Guénon, de “coração irradiante”. O coração com raios flamejantes na parte superior, com ideia de calor, é chamado de “coração ardente”. A luz, como símbolo do conhecimento, é aqui representada pelo sol: conhecimento direto, intuitivo; e pela luz lunar: como conhecimento refletido, dado pela razão Nesse caso, o conhecimento da percepção (experiência de êxtase), intuitivo, como no hinduísmo, é chamado de “conhecimento do coração”. O simbolismo do coração representa quase sempre o calor e a luz.

O caminho dos místicos cristãos é o caminho do coração ardente semelhante à tradição Bhakti hindu, onde o coração é o lugar da aspiração e do encontro com os deuses. Já para os sacerdotes brâmanes, o caminho mais apropriado é do coração irradiante, isto é, do conhecimento real e verdadeiro (satya), pois somente ele possibilita a passagem do mundo ilusório para o real. O coração, como o sol, ilumina e aquece. Alcançar o equilíbrio entre essas duas formas de libido, ou entre o sentimento e o pensamento, é um dos desejos da modernidade.

Outro aspecto significativo do culto ao coração é a representação do coração de Maria rodeado por rosas, e o de Cristo, pela coroa de espinhos (a rosa, na cultura medieval era símbolo da benção celestial e os espinhos, da humilhação, martírio e crucificação de Cristo). O coração de Maria mostra o sofrimento da mãe pela morte do filho, que redime e perdoa por meio das rosas que oferece a quem invoca; o coração é apunhalado em algumas representações, mas irradia paz e se abre como refúgio para os que buscam. Maria, arquétipo da grande mãe. Esse coração transmite segurança, calor e proteção. O coração de Cristo, repleto de espinhos, representa o mito do herói sacrificado que revela “o caminho do coração”, meio para o amor e para o conhecimento de si mesmo: centro ardente e irradiante.




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Ref: A psique do coração; Denise Gimenez Ramos; Elisa Rodrigues; A. Erman, La religion des egyptiens; Sri E. A. Wallis Budge, The Egypctian Book of the Dead; Ramana Maharshi, The Spiritual Teaching of Ramana Mararshi; Max Müller, Chhãndogya Upanishad The Upanishads; Heinrich Zimmer, Philosophies of Índia; V.V.A.A., Um coração para sempre; Blaise Pascal.







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