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Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti


Eis o teu rosto iluminado por esta hora de maio.

Ao filho autêntico, basta fechar os olhos para encontrar o rosto da sua mãe.

A fronteira que separa o dentro do fora é vaga de propósito, mais exata é a fronteira dos meses.

Mãe, as tardes de maio não são um acaso.

Pus um pouco de ti naquilo que fiz de mais importante.

Onde existir terra estás tu, dás força e horizonte.

O ar não permitiria respiração se não te contivesse.

A água não seria capaz de alimentar sem a tua presença líquida.

O fogo não chegaria a acender se não incluísse o teu mistério no seu mistério.

Estavas já no primeiro início do firmamento, nesse rugido que encheu a superfície do céu e da terra, que rasgou as trevas; da mesma maneira, estarás no seu último fim.

Estás antes e depois.

Estás na lenta passagem da eternidade.

Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.

Sabes que criei tudo o que há e sabes também que não criei tudo o que poderia haver.

Entre as faltas evidentes, estão palavras capazes de dizer a tua beleza.

Indistintas do silêncio, essas palavras esperam por um tempo que não chegará e, assim, fazem com que a tua beleza seja impossível.

Essa é a natureza do divino, existe e é impossível.

Mãe, a falta de palavras para dizer a tua beleza não é um acaso.

A tua beleza não quer ser dita, prefere ser contemplada.

Os olhos não têm a ambição de possuir.

A tua beleza é a tua liberdade.

Por isso, mãe, por amor e respeito, pus um pouco de ti em tudo o que fiz.

Não se pode olhar para qualquer ponto desta obra sem te ver.

Mãe, este instante não é um acaso.

Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti.


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José Luís Peixoto (Em Teu Ventre)


Saudade

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