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Estrelas

É absurdo procurar um poço ao acaso, na imensidão do deserto (...)


Já tínhamos andado horas em silêncio quando a noite caiu e as estrelas começaram a brilhar. Eu as via como em sonho, porque tinha um pouco de febre, por causa da sede. (...)


– Tu tens sede também? Perguntei-lhe.

Mas não respondeu à minha pergunta. Disse apenas:


– A água pode ser boa para o coração...


(...) Ele estava cansado. Sentou-se. Sentei-me junto dele. E, após um silêncio, disse ainda:


– As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê (...)


– O deserto é belo, acrescentou...

E era verdade. Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E, no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia...

O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar...


Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia. Quando eu era pequeno, havia uma casa antiga, e diziam as lendas que ali fora enterrado um tesouro. Ninguém, é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o procurasse. Mas ele encantava a casa toda. Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...

– Quer se trate da casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz a sua beleza é o invisível!


(...) Como o principezinho adormeceu, tomei-o nos braços e prossegui a caminhada. Eu estava comovido. Tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo não haver na Terra nada mais frágil. Considerava, à luz da lua, a fonte pálida, os olhos fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...


(...) Pensei ainda: O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme... Eu o pressentia então mais frágil ainda. É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...

(...) Faz um ano esta noite. Minha estrela se achará justamente em cima do lugar onde caí ano passado (...) O que é importante, a gente não vê (...) Será como a flor. Se tu amas uma flor que se encontra em uma estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.

(...) Tu olharás, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim. Minha estrela será então qualquer estrela. Gostará de olhar todas elas... Serão, todas, tuas amigas. (...)


As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, os sábios, são questões. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém... Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir!

E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: “Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!”

(...) Será bonito, sabes? Eu também olharei as estrelas.

Todas as estrelas serão poços... todas as estrelas me darão de beber...

__ Antoine de Saint-Exupéry

(O Pequeno Príncipe)




30 de Agosto,

2 anos sem minha mãe...



"a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar..."


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Ph: (Nyx, 2020)

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