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Medusa.

Por quem e como as armas do inferno foram criadas? Quem fez seus chãos flamejantes?

E de onde são essas chamas? O Buda Sakyamuni ensinou: "Tudo isso nasce da mente iludida".

Shantideva


Medusa

"[…] os motivos poéticos ligados ao olhar são geralmente desencadeadores de um processo de auto-observação, de sondagem interior na tentativa de autorreconhecimento, é, portanto, um olhar que incide sobre o sujeito e o desmascara para si mesmo" (Giavara; Nascimento, 2013)

"O inimigo a combater. As deformações monstruosas da psique são devidas às forças pervertidas de três pulsões: sociabilidade, sexualidade, espiritualidade. Euríale seria a perversão sexual, Esteno a perversão social, Medusa simbolizava a principal destas pulsões: a pulsão espiritual e evolutiva, mas pervertida em estagnação vaidosa." (Chevalier; Gheerbrant, 2004)




“Tenha mais medo do tempo que dos meus olhos”

(Ezra Pound)



Reflexão:

Medusa era uma belíssima sacerdotisa do templo de Atena, 'desejada por muitos pretendentes mortais e imortais'. Sua beleza era tão grande que passou a acreditar que era mais bela que Atena (Deusa da Sabedoria) e a se vangloriar por isso, com soberba e arrogância .


Atena nasceu da cabeça de Zeus, é uma deusa de muitos atributos: a ela foi conferido o bom senso, a justiça, a filosofia; é uma deusa justa e também protetora.


Um dia Medusa quebrou o voto de castidade que tinha feito para se tornar sacerdotisa de Atena, e uniu-se com o "Senhor dos Mares", Poseidon. Após isso, quando Medusa retornou ao templo da deusa fingindo nada ter acontecido (dissimulação), Atena puniu-a, banindo-a para uma ilha, transformando os belos cabelos de que ela tanto se orgulhava em serpentes e deixando seu rosto tão horrível de se contemplar que a mera visão dele transformaria todos que o olhassem em pedra.

(Conta-se em algumas versões que Medusa possuía os olhos brancos e brilhantes, e quem o fitasse encararia sua própria imagem refletida neles. Em outras versões onde é tida como Deusa-Serpente conta-se que ela tinha uma face encoberta, perigosa. Está inscrito que ninguém seria capaz de levantar seu véu, e quem olhasse para sua face enxergaria sua própria morte, enquanto ela via os ciclos do seu tempo - passado, presente e futuro. Uma outra versão de que a Medusa teria sido estuprada por Poseidon se popularizou nos dias atuais, porem não passa de uma confusão entre outras lendas.)


Medusa era uma das três Górgonas, filha de Fórcis e Ceto. Ao contrário de suas irmãs górgonas, Esteno e Euríale, Medusa era mortal e assim potencialmente vulnerável. A dificuldade era que qualquer um que a olhasse seria petrificado. Ela só pôde ser vencida pelo herói Perseu (semi-deus, filho de Dânae e Zeus) que havia recebido do rei Polidetes de Sérifo a missão de trazer sua cabeça. Com o auxílio de Atena (Sabedoria), de Hermes (Divinação) e de Hades (Deus dos Mundos Inferiores), que lhe forneceram sandálias aladas, um elmo de invisibilidade, uma espada e um escudo espelhado, o herói cumpriu sua missão, decapitando a Górgona (que estava grávida de Poseidon). Perseu teve sua mão guiada por Atena em seu golpe final, após olhar apenas para seu inofensivo reflexo no escudo, evitando assim ser transformado em pedra. (Outras versões contam que quando Medusa foi ataca-lo, ele mostrou a ela seu escudo, que refletiu sua imagem. Ao ver sua própria imagem refletida, Medusa transformou-se em pedra, Perseu então cortou-lhe a cabeça.)


Quando Perseu arrancou a cabeça da Medusa, de seu pescoço duas criaturas nasceram: o cavalo alado Pégaso e o gigante dourado Crisaor. Perseu teria então voado pelo titã Atlas, que segurava o céu em seus ombros, e o transformado em pedra. Os corais do Mar Vermelho teriam sido formados pelo sangue da Medusa, derramado sobre algas quando Perseu colocou a cabeça num trecho do litoral, durante sua breve estada na Etiópia, onde salvou e se casou com a princesa Andrômeda. As víboras venenosas que infestam o Saara também foram citadas como sendo nascidas de gotas derramadas de seu sangue. Perseu voou então para Sérifo, deu então a cabeça da Górgona para Atena, que a colocou em seu escudo, o Aegis.

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Medusa representa as formas mentais negativas, com seus cabelos em forma de serpentes, que paralisam o ser humano e o impedem de evoluir. Apenas com o auxílio da sabedoria, representada por Atena, o ser humano (o herói - Perseu) pôde combater a Medusa e vencê-la.


Como suas outras irmãs, Medusa representaria as perversões. Ela encarnaria o principal impulso humano, espiritual e evolutivo - a vontade de crescer e evoluir - que pervertido em estagnação impede a justa harmonia. Quem olha a Medusa se petrifica, por ser ela o reflexo da imagem da culpa do espectador, o reconhecimento íntimo da falta.


Quando nos confrontamos com a Medusa em nosso interior, num primeiro momento há um sofrimento imenso devido a dificuldade em perceber a própria imagem. Quem sou eu? A grande pergunta para a qual toda a humanidade busca respostas.



"Você é capaz de olhar para dentro de si mesmo sem susto?"

Da morte de Medusa resultará a vida de Pégaso que, unido ao homem, é o Centauro, monstro identificado com os instintos animalescos. Mas também é fonte, como o seu nome simboliza "alado", da imaginação criadora sublimada e sua elevação. Temos em Pégaso dois sentidos: a fonte e as asas. Um dos símbolos da inspiração poética, representa a fecundidade e a criatividade espiritual. Pégaso talvez represente o lado belo de Medusa, o lado que ficou oculto por ela representar o impulso espiritual estagnado. Pégaso seria, portanto, a espiritualidade em movimento.

Crisaor (irmão de Pégaso) é apenas um monstro, pai de outros monstros: o Gerião de três cabeças e Équidna. Esta última herda da avó um destino trágico: seu corpo metade mulher, de lindas faces e belos olhos, tem, na outra metade, uma enorme serpente malhada e cruel. É a bela criatura de gênio violento, incapaz de amar. Uma reedição de Medusa que dará continuação a saga. (...)

Com uma imagem distorcida, estes "filhos de Medusa" não podem ver a si mesmos como realmente são e, por isto, sempre se imaginam bem piores, até mesmo do que poderiam ser.


Monstro que é percebido, mas que se nega a ser visto como realmente é, Medusa não olha, não acaricia, não orienta. Apenas paralisa. Não é por acaso que o sentimento de depressão caracteriza-se pela inércia, a perda e a ausência da vitalidade natural. Como se tivessem sido transformados em pedra pelo seu olhar, os "filhos" de Medusa erram pela vida sem espelhos que possam traduzir sua própria imagem. São monstros cuja criatividade, afogada na pedra de suas almas, precisa urgentemente ser libertada, ao encontro de um espelho que lhes digam quem são ou o que não devem ser. O espelho - O escudo - Atena (Sabedoria - Justiça).

Quando decapitada, do pescoço de Medusa saíram dois seres (Crisaor e Pégaso). De sua veia esquerda saiu um poderoso veneno; da veia direita um elixir da vida. (Dualidade- o que mostrava que ela possuía dentro de si o remédio e o veneno, este o qual escolheu sempre usar)


De sua morte (Medusa) resultará a vida de Pégaso, que ganhará os céus simbolizando a vitória da sabedoria (Atena) e sua união com a espiritualidade, recuperando a sensibilidade que sempre existiu naquele que se julgava um verdadeiro monstro. Pégaso não se transformará no monstro Centauro, identificado com o instinto animalesco e a sexualidade desregrada. Caso opte por incorporar o Centauro, errará pela vida em eterno sofrimento. Pégaso, por outro lado, será a fonte da mais pura elevação, da criatividade, da fidelidade/lealdade. Não é por acaso que Pégaso simboliza a Poesia.

Perseu, o herói capaz de salvar a humanidade da petrificação, que seria o seu destino inexorável ao encarar os olhos de Medusa (o Medo - a Perversão). A dureza e o peso da pedra se contrapõem à leveza e a graça do herói, que para alcançar a cabeça do monstro e cortá-la, se vale de sandálias aladas, que assim lhe subtraem o peso (elevação). Essa era a ameaça que o monstro Medusa representava: petrificar aquele que a encarava, como se endurecesse e perdesse a vitalidade daquele que encarasse o que de mais feio havia naquela sociedade. Para além da leveza há também a Sabedoria (Atena), tendo Atena sempre como orientadora de seu movimento e visão, Perseu leva consigo um espelho onde o monstro vai se mirar e assim perder a vida se tornando também pedra. Perseu e Danae (sua mãe) são os opostos de Medusa. Não permitiram que seus sofrimentos se transformassem em ódio pela humanidade. Ao contrário de Medusa, da qual ninguém poderia se aproximar. Somente Perseu poderia, portanto, destruir Medusa. Ele pôde ser visto exatamente como o seu contrário no espelho: sexos opostos; Medusa permanentemente ressentida, Perseu sempre disposto a perdoar; ela sem possibilidade de resgate, ele salvo pelo amor de Danae que o acompanha, pelo cuidado de um deus e pelo amor de um rei. Em suma: Perseu possui tudo o que faltou a Medusa, que precisa ser vista, através de um espelho, para ser destruída e libertar Pégaso.

Medusa precisa ser compreendida além de seu aspecto monstruoso. Depois de morta, serve à Minerva (Atena), mesmo que seja como esfinge no seu escudo. Guiado pela justiça e sabedoria de Atena, o olhar de Medusa agora é útil, tem aplicabilidade, destrói o inimigo. Medusa não se interessa muito por seus filhos deuses, ou seja, aqueles com qualidades excepcionais, pois prefere mais os que podem ser semelhantes a ela. Medusa conhece Pégaso, ele está dentro dela mesmo antes de nascer. Precisa apenas libertar-se para ganhar os céus com suas asas maravilhosas. Ele é a poesia, em sua sensibilidade, é liberdade em sua ousadia de voar e, para sua maior afronta, de alguma forma, ele representa a sabedoria, a mente brilhante que lhe faz lembrar Atena, sua maior opositora. Medusa tenta seduzi-lo para colocá-lo a seu serviço. Mesmo carente, necessitando do espelho do olhar da mãe, Pégaso resiste, pois sabe que se submeter é a escravidão e a monstruosidade, é perder a liberdade e sensibilidade, é não poder mais voar e abdicar, de uma vez por todas, de sua sabedoria. É tornar-se um deus a serviço de um monstro, ou seja, monstro também. Medusa, mais uma vez, sente-se rejeitada, não podendo compreender que esse ser divino por ela gerado não a aceite. Deseja suas qualidades, pois como monstro, há muito esqueceu a sua condição de sacerdotisa. Deseja-o a qualquer custo. Por sua vez, Pégaso procura fugir desse corpo monstruoso que o aprisiona, precisa nascer, realizar plenamente suas potencialidades. Mas como fugir daquela que tanto insiste em aprisioná-lo dentro de si? Ora, fundir-se com Medusa é ser monstro e escravo de sua vontade, vontade que nunca é satisfeita, pois parece ser o destino de Medusa a eterna insatisfação e morte. Fundir-se com ela é perder a individualidade e errar pela vida a fim de cumprir um destino cruel e perverso. Pégaso reconhece isto e, naturalmente, foge. Dois caminhos, portanto, podem ser traçados: Primeiro, Pégaso aceita a sedução e transforma-se no Centauro (monstro semelhante à Medusa); passa a ser o filho seduzido, entregue à loucura de sua “mãe-monstro” (sistemas de crenças), tentando sempre satisfazê-la, pois se torna incapaz de aperceber-se de que lhe foi entregue uma tarefa impossível: não por incapacidade dele para realiza-la, mas pela insaciabilidade de Medusa que o impede de cumprí-la.

No outro caminho, Pégaso descobre rapidamente que a mãe (Medusa) não lhe serve de espelho, que ela não pode oferecer-lhe de volta uma imagem para que ele possa construir-se. A percepção de si mesmo toma o lugar que poderia ter sido o começo de uma troca significativa com o mundo, o começo de um processo em duas direções, em que o auto enriquecimento se alterna com a descoberta de significado do mundo das coisas vistas.

Enlouquecido, sem poder de escolha, dependente de Medusa, resta a Pégaso a culpa de aceitar a sedução e o destino de passar a vida orbitando ao redor da mãe (Medusa), rebelando-se contra a sua tirania de vez em quando, e, na medida em que se rebela, deprime-se. Reconhecer a Medusa é a maior obra que se pode propor a alguém. Desempenhar o papel de Perseu, que reconhece e mata a Medusa, é uma tarefa para se realizar apenas com a ajuda dos deuses, assim como no mito. É preciso encontrar as sandálias aladas, a espada de Hermes (Divinação) e o escudo de Atena (Sabedoria/Justiça). Simbolicamente, encontrar um Poseidon que os salve, uma Danae que os ame incondicionalmente e alguém que lhes arme como Atena.

Em nossa cultura não é fácil, pois, reconhecer Medusa em um meio que lhe parece tão favorável. É uma tarefa que implica em culpas e depressões. Os “filhos seduzidos” de Medusa podem ser comparados às massas amorfas, sem pensamentos próprios, sem sentimentos particulares, sem senso de privacidade, sem autonomia. Não fossem a sua infelicidade e atonia, poderiam ser comparados a um feto: preso ao cordão umbilical que o alimenta, participa com a Medusa de sua monstruosidade, compartilhando excessivamente de suas ideias. Pérfidos, maldosos, incapazes de elaborações próprias sobre a realidade que os cercam associam-se a Medusa, Ésteno e Euríale, simbolicamente as perversões sociais, sexuais e espirituais, em outras palavras: as sociopatias e toda espécie de psicopatias; desregramentos como cobiça, materialismo, vaidade, orgulho, narcisismo etc, etc. Eis Medusa e suas irmãs: entregar-se a uma é abrir guarda para todas. Escolher seguir Medusa é escolher a loucura e autodestruição. Outros seduzidos, caso não enlouqueçam, devido a distorção de sua imagem, desenvolvem o que chamam de “falsa imagem de si próprios”. Incapazes de amar incondicionalmente, adquirem o que se pode chamar de “destino da lua”, ou seja, "mesmo que a todos encantem, não podem ser de ninguém".

Medusa, o elixir da vida e o veneno da morte. Aceitar ser “seduzido” é perder-se para sempre de si mesmo. Ser o eleito é ter a possibilidade de perceber os males e a libertação. É preciso coragem para enfrentar o processo de reconhecimento de sua existência em nosso interior, coragem e habilidade para enfrentá-la sem ser destruído por ela, e maturidade para aceitar e sublimar o sofrimento causado por ela. O fundamental é caminhar para a liberdade, é reconhecer-se como Pégaso.

O Mito de Perseu está relacionado ao arquétipo do herói. Herói é aquele que nasceu para servir, sendo sempre filho de um(a) deus(a) com um(a) mortal, tendo características específicas desde sua vinda ao mundo. O significado de Perseu sugere várias interpretações como “o sol nascente” e “persona”, que significa a máscara ou papel social. Em ambos casos, a proximidade com a obscuridade é nítida em Perseu, ou seja, existe uma íntima relação do herói com o inconsciente.

Depois de decapitar a Medusa, o herói volta para Sérifos e no caminho encontra Andrômeda, se apaixona e liberta-a do monstro. Nesta parte do mito Perseu resgata a sua anima indiferenciada do arquétipo da grande mãe. No mito, Perseu traz a cabeça de Medusa para Polidectes. Esta parte do mito representa a conscientização de conteúdos que estão no inconsciente. Desta forma Perseu consegue integração de conteúdos inconscientes. A grande façanha do herói supremo é alcançar o conhecimento dessa unidade na multiplicidade e, em seguida, torná-la conhecida. Esta façanha, ele conseguiu ao decapitar a Medusa, que vivia no seu inconsciente, e trazê-la para a consciência.

A imagem do monstro refletida no espelho opõe-se a uma experiência de olharmos direta e frontalmente para nossos medos. Um suposto aumentativo da palavra reflexo é: Reflexão. Ou seja, refletir, é como curvarmo-nos sobre nós mesmos. Essa forma de abordagem e aproximação é uma das lições que nos ensina o mito da Górgona Medusa, derrotada por Perseu. Ele venceu o horrendo monstro, sem olhar para ela, porém polindo seu escudo como um espelho: ao ver-se refletida, a Medusa ficou petrificada de horror e o herói cortou-lhe a cabeça. O escudo é o símbolo da arma passiva, defensiva e protetora. É considerado como uma arma psicológica.

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Por fim, deixo abaixo uma breve reflexão feita pela prof. Lúcia Helena Galvão, da Nova Acrópole:


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