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  • nádiamaria

O barco vazio


Imaginai uma barca quadrada que atravessa um rio.

Uma barca vazia choca-se com ela e seus marinheiros perguntam-se:

– O que foi isso? Ora, realmente nada, apenas uma barca vazia!

Mas, se houver um homem na barca, eles, homens de espírito egoísta e mesquinho, o insultarão e gritarão para que recolha a barca. Se esse homem não os ouvir, na segunda vez poderão surrá-lo ou mesmo matá-lo.

Em resumo, uma barca vazia não excita a cólera; ela só a provoca quando está ocupada.

Dessa forma, quem poderá fazer mal a quem tiver se esvaziado de seu EU? __ Chuang Tzu


Sanidade significa chegar ao que é natural, chegar ao que é perfeito em você, ao que está escondido atrás do nome e da forma. Muito esforço é necessário porque para cortar a forma, deixar para trás e eliminar a forma, é muito difícil. Você se tornou muito apegado e identificado a ela. (..) Toda forma significa ego; até mesmo um galo tem seu ego, e o homem também tem o seu. Toda forma é centrada no ego. Não-forma significa sem ego; você não está mais centrado no ego: o seu centro está em toda parte ou em parte alguma. (...) Todo o esforço é nesse sentido – torna-lo um ninguém. Mas por que? Por que esse esforço para se tornar um ninguém? Porque, a menos que se torne um ninguém, você não poderá ficar em êxtase; a menos que se torne um ninguém, a bênção não se derramará sobre você – você continuará desperdiçando a sua vida.


(...) Buda alcançou esse vazio, esse nada. Durante duas semanas, por catorze dias, continuamente, ele se sentou em silêncio, sem se mover, sem dizer nada, sem fazer nada.


Dizem que as divindades no céu ficaram preocupadas – raramente aconteceu de alguém se tornar um vazio tão absoluto. Toda a existência sentiu uma celebração, as divindades vieram. Fizeram um reverência diante de Buda e disseram: “É preciso que diga alguma coisa, que diga o que você alcançou.” Conta-se que Buda riu e disse: “Eu não alcancei nada; mas sim, por causa dessa mente, que sempre quer alcançar alguma coisa, eu estava perdendo tudo. Eu não alcancei nada, isso não é uma conquista; pelo contrário, o conquistador desapareceu. Eu não existo mais, veja a beleza disso”, disse Buda. “Quando eu existia, era infeliz, e agora que eu não existo mais, tudo é feliz, a felicidade se derrama continuamente sobre mim, em todos os lugares. Agora não há mais sofrimento.”


Buda havia dito antes: “A vida é sofrimento, o nascimento é sofrimento, a morte é sofrimento – tudo é sofrimento.” Era sofrimento porque o ego estava lá. O barco não estava vazio. Agora, o barco estava vazio, agora não havia mais sofrimento, nenhum pesar, nenhuma tristeza. A existência se tornara uma celebração e permaneceria uma celebração pela eternidade, para sempre.


Todo o esforço é no sentido de dissolvê-lo; todo o esforço é como destruir você. Uma vez destruído, o indestrutível virá à tona – ele está lá, escondido. Depois que tudo o que não é essencial for eliminado, o essencial será como uma chama – vivo em sua glória total. Esta parábola de Chuang Tzu é linda. Ele diz que um homem sábio é como um barco vazio.


Assim é o homem perfeito – seu barco está vazio


Não há ninguém dentro.


O Barco Vazio


Se um homem estiver atravessando um rio

E um barco vazio colidir com a sua própria embarcação,

Mesmo que ele seja um homem mal-humorado

Não vai ficar muito irritado.

Mas se vir um homem no outro barco,

Ele vai gritar com ele para que reme direito.

Se o seu grito não for ouvido, ele vai gritar de novo,

E mais uma vez começará a xingar.

Tudo porque há alguém no barco.

Se o barco estivesse vazio, ele não estaria gritando

Nem ficaria com raiva.

Se você conseguir esvaziar o seu barco

Ao atravessar o rio do mundo,

Ninguém vai se opor a você,

Ninguém vai tentar lhe fazer mal.

...

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Chuang Tzu



“Assim é o homem perfeito – seu barco está vazio.”


Vazio de que? Vazio do eu, vazio do ego, vazio de alguém lá dentro.


A mensagem de Lao Tsé ou Chuang Tzu é a mais pura – absolutamente pura, nada a contaminou. E a mensagem é a seguinte: é tudo porque há alguém no barco. Este inferno inteiro é só porque há alguém no barco.


Esvazie o barco.



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Chuang Tzu, considerado o maior escritor taoista, escreveu sua obra no final do período clássico da filosofia chinesa, de 550 a 250 aC. Ref: MERTON, Thomas. A Via de Chuang Tzu; Osho, O Barco Vazio.