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  • nádiamaria

O resgate da intuição como iniciação

“Nós os conduzimos até a borda e pedimos que voassem.

Eles não arredaram pé. Voem, dissemos. Eles não se mexeram.

Nós os empurramos para o abismo. E eles voaram.”

O resgate da intuição como iniciação

A boneca no bolso: Vasalisa

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A intuição é o tesouro da psique da mulher. Ela é como um instrumento de adivinhação, como um cristal através do qual se pode ver com uma visão interior excepcional. Ela é como uma velha sábia que está sempre com você, que lhe diz exata-mente qual é o problema, que lhe diz exatamente se você deve virar à esquerda ou à direita. Ela é uma forma de velha La Que Sabe, Daquela Que Sabe, da Mulher Selvagem.

As contadoras de histórias dedicadas estão sempre longe, aos pés de algum morro, afundadas até os joelhos na poeira das histórias, retirando séculos de sujeira, escavando camadas de culturas e de conquistas, classificando cada friso e cada afresco de história que possam encontrar. Às vezes a história foi reduzida a pó, às vezes porções e detalhes estão faltando ou foram perdidos; com freqüência, a forma está intacta mas o espírito está destruído. Mesmo assim, toda escavação traz em si a esperança de se encontrar uma história inteira, intacta. A história que se segue é exatamente um incrível tesouro desses.

O antigo conto russo de “Vasalisa” é a história praticamente intacta da iniciação de uma mulher. Ele trata da percepção de que a maioria das coisas não é o que parece. Como mulheres, recorremos à nossa intuição e aos nossos instintos para farejar tudo. Usamos nossos sentidos para espremer a verdade das coisas, para extrair o alimento das idéias, para ver o que há para ser visto, para conhecer o que há para ser conhecido, para ser as guardiãs do fogo criativo e para ter uma compreensão íntima dos ciclos de vida-morte-vida de toda a natureza — assim é uma mulher iniciada.

A história de Vasalisa é contada na Rússia, na Romênia, na lugoslávia, na Polônia e em todos os países bálticos. Ela às vezes é intitulada "A boneca"; às vezes, "Wassilissa, a sabida". Encontramos indícios de suas raízes arquetípicas até pelo menos o tempo dos cultos das antigas deusas-cavalo que antecederam a cultura grega clássica. É um conto que traz um mapeamento psíquico antiqüíssimo acerca da indução no mundo subterrâneo do selvagem Deus-fêmea. Ele fala de como infundir nas mulheres o poder instintivo básico da Mulher Selvagem: a intuição.

Essa história começa com um dos mais antigos truques conhecidos dos contadores de histórias: “Era uma vez, e não era uma vez...” Essa frase paradoxal tem a intenção de alertar a alma do ouvinte para o fato de a história ter lugar no mundo entre os mundos, onde nada é o que parece ser à primeira vista.


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VASALISA


Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte, com o rosto pálido como as rosas brancas de cera na sacristia da igreja dali de perto. Sua filhinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e oravam para que Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo.

A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental branco ajoelhou-se ao lado da mãe.

— Essa boneca é para você, meu amor — sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalisa, usava botas vermelhas, avental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida.

— Estas são as minhas últimas palavras, querida — disse a mãe. — Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte à boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. Essa é a minha promessa de mãe para você, minha bênção, querida. — E, com essas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo, onde recolheu sua alma, e saiu correndo pelo lábios; e a mãe morreu.

A criança e o pai choraram sua morte muito tempo. No entanto, como o campo arrasado pela guerra, a vida do pai voltou a verdejar por entre os sulcos e ele desposou uma viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o pai de Vasalisa não percebia.

Realmente, quando as três estavam sozinhas com Vasalisa, elas a atormentavam, forçavam-na a lhes servir de criada, mandavam-na cortar lenha para que sua pele delicada se ferisse. Elas a detestavam porque Vasalisa tinha uma doçura que não parecia deste mundo. Ela era também muito bonita. Seus seios eram fartos, enquanto os delas definhavam de maldade. Ela era solícita e não se queixava, enquanto a madrasta e as duas filhas eram, entre si mesmas, como ratos no monte de lixo à noite.

Um dia a madrasta e suas filhas simplesmente não conseguiam mais agüentar Vasalisa.

— Vamos... combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasalisa entrar na floresta para ir pedir fogo para nossa lareira a Baba Yaga, a bruxa. E, quando ela chegar até Baba Yaga, bem, a velha irá matá-la e comê-la. — As três bateram palmas e guincharam como animais que vivem na escuridão.

Por isso, naquela noite, quando Vasalisa voltou para casa depois de catar lenha, a casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a madrasta.

— O que aconteceu? Como vamos fazer para cozinhar? O que vamos fazer para iluminar as trevas?

— Sua imbecil — reclamou a madrasta. — É claro que não temos fogo. E eu não posso sair para o bosque devido à minha idade. Minhas filhas não podem ir porque têm medo. Você é a única que tem condições de sair floresta adentro para encontrar Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo de novo.

— Ora, está bem — respondeu Vasalisa inocente. — É o que vou fazer. — E foi mesmo. A floresta ia ficando cada i mais escura, e os gravetos estalavam sob seus pés, deixando assustada. Ela enfiou a mão bem fundo no bolso do avental e ali estava a boneca que a mãe ao morrer lhe havia dado.

— Só de tocar nessa boneca, já me sinto melhor — disse Vasalisa, acariciando a boneca no bolso.

— A cada bifurcação da estrada, Vasalisa enfiava a mão» bolso e consultava a boneca. “Bem, eu devo ir para a esquerda ou para direita?” A boneca respondia “Sim”, “Não”, “Para esse lado” ou “Para aquele lado”. E Vasalisa dava à boneca um pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da boneca.

De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho, e o sol apareceu. Vasalisa caminhou e caminhou e, bem na hora em que estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro passou trotando e entrou direto no casebre. Imediatamente fez-se noite. A cerca feita de caveiras e ossos ao redor da choupana começou a refulgir com um fogo interno de tal forma que a clareira ali na floresta ficou iluminada com uma luz espectral.

Ora, Baba Yaga era uma criatura muito temível. Ela viajava, não num coche, nem numa carruagem, mas num caldeirão com o formato de um gral que voava sozinho. Ela remava esse veículo com um remo que parecia um pilão e o tempo todo varria o rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há muito tempo.

E o caldeirão veio voando pelo céu, com o próprio cabelo sebento de Baba Yaga na esteira. Seu queixo comprido curvado para cima e seu longo nariz era curvado para baixo de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Baba Yaga tinha um ínfimo cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com sapos. Suas unhas manchadas de marrom eram grossas e estriadas como telhados, e tão compridas e recurvas que ela não conseguia fechar a mão.

Ainda mais estranha era a casa de Baba Yaga. Ela ficava em cima de enormes pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava de um lado para o outro sozinha. Ela às vezes girava e girava como uma bailarina em transe. As cavilhas nas portas e janelas eram feitas de dedos humanos, das mãos e dos pés e a tranca da porta da frente era um focinho com muitos dentes pontiagudos.

Vasalisa consultou sua boneca. "E essa casa que procuramos?" E a boneca, a seu modo, respondeu: "É, é essa a que procuramos." E antes que ela pudesse dar mais um passo. Baba Yaga no seu caldeirão desceu sobre Vasalisa, aos gritos.

— O que você quer?

— Vovó, vim apanhar fogo — respondeu a menina, estremecendo. — Está frio na minha casa... o meu pessoal vai morrer... preciso de fogo.

— Ah, sssssei — retrucou Baba Yaga, rabugenta. — Conheço você e o seu pessoal. Bem, criança inútil... você deixou o fogo se apagar. O que é muita imprudência. Além do mais, o que a fez pensar que eu lhe daria a chama?

— Porque eu estou pedindo — respondeu rápido Vasalisa depois de consultar a boneca.

— Você tem sorte — ronronou Baba Yaga. — Essa é a resposta certa.

E Vasalisa se sentiu com muita sorte por ter acertado a resposta. Baba Yaga, porém, a ameaçou.

— Não há a menor possibilidade de eu lhe dar o fogo antes de você fazer algum trabalho para mim. Se você realizar essas tarefas para mim, receberá o fogo. Se não... — E nesse ponto Vasalisa viu que os olhos de Baba Yaga de repente se transformavam em brasas. — Se não, minha filha, você morrerá.

E assim Baba Yaga entrou pesadamente no casebre, deitou-se na cama e mandou que Vasalisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. No forno havia comida suficiente para dez pessoas, e a Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha e um dedal de sopa para Vasalisa.

Lave minha roupa, varra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho mofado do milho bom e certifique-se de que tudo está em ordem. Volto mais tarde para inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete. — E com isso a Baba Yaga partiu voando no seu caldeirão com o nariz lhe servindo de biruta e o cabelo, de vela. E anoiteceu novamente.

— Vasalisa voltou-se para a boneca assim que a Yaga se foi.

— — O que vou fazer? Vou conseguir cumprir as tarefas a tempo? — A boneca disse que sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasalisa deu algo de comer à boneca também e adormeceu.

Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. À noite, a Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de Vasalisa.

— Você é uma menina de sorte. — Ela, então, convocou seus fiéis criados para moer o milho, e três pares de mãos apareceram em pleno ar e começaram a raspar e esmagar o milho. Os resíduos pairavam no ar como uma neve dourada. Finalmente, o serviço terminou, e Baba Yaga se sentou para comer. Comeu horas a fio e deu ordens a Vasalisa para que no dia seguinte limpasse a casa, varresse o quintal e lavasse a roupa.

— Naquele monte de estrume — disse a Yaga, apontando para um enorme monte de estrume no quintal — há muitas sementes de papoula, milhões de sementes de papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu? — Meu Deus, como vou fazer isso? — exclamou Vasalisa, quase desmaiando.

— Não se preocupe, eu me encarrego — sussurrou a boneca, quando a menina enfiou a mão no bolso.

Naquela noite. Baba Yaga adormeceu roncando, e Vasalisa tentou... catar... as... sementes de papoula... do... meio... do... estrume.

— Durma agora — disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. — Tudo vai dar certo.

Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo estava pronto.

— Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! — disse Baba Yaga, falando sarcástica pelo nariz. Ela chamou seus fiéis criados para prensar o óleo das sementes, e novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa.

Enquanto a Yaga estava besuntando os lábios na gordura; do cozido, Vasalisa ficou parada por perto.

— E aí, o que é que você está olhando? — perguntou Baba Yaga, de mau humor.

— Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? — perguntou Vasalisa.

— Pergunte — ordenou a Yaga —, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas antes do tempo.

Vasalisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.

— Ah — respondeu a Yaga, com carinho.

— Esse primeiro é o meu Dia. — E o homem de vermelho no cavalo vermelho?

— Ah, esse é o meu Sol Nascente.

— E o homem de negro no cavalo negro?

— Ah, sim, esse é o terceiro e ele é a minha Noite.

— Entendi — disse Vasalisa.

— Vamos, vamos, minha criança. Não quer me fazer mais perguntas? — sugeriu a Yaga, manhosa.

Vasalisa estava a ponto de perguntar sobre os pares de mãos que apareciam e desapareciam, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e, em vez disso, Vasalisa respondeu.

— Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa antes da hora.

— É — disse a Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho —, você é muito ajuizada para a sua idade, menina. Como conseguiu isso?

— Foi a bênção da minha mãe — disse Vasalisa, com um sorriso. — Bênção?! — guinchou Baba Yaga.

— Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. — E foi empurrando Vasalisa para o lado de fora. — Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! — Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. — Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma palavra sequer. Só vá embora.

Vasalisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a saltar para cima e para baixo, e Vasalisa percebeu que devia só apanhar o fogo e ir embora. Ela voltou correndo para casa, seguindo as curvas e voltas da estrada com a boneca lhe indicando o caminho. Era noite, e Vasalisa atravessou a floresta com a caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos olhos, do nariz e da boca. De repente, ela sentiu medo dessa luz espectral e pensou em jogála fora, mas a caveira falou com ela, insistindo para que se acalmasse e prosseguisse para a casa da madrasta e das filhas.

Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chegava mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a longa ausência de Vasalisa indicava que ela a essa altura estava morta, que seus ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela havia desaparecido!

Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E, quando a madrasta e suas filhas viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extinguia.

Vasalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigosa jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entanto, a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.


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E assim termina, com um final abrupto para abalar as pessoas tirando-as do conto de fadas e as devolvendo para a realidade. Existem muitos finais desse tipo nos contos de fadas. Eles equivalem a dar um susto nos ouvintes para trazê-los de volta à realidade concreta.

Vasalisa é uma história da transmissão da bênção do poder da intuição das mulheres de mãe para filha, de uma geração para a outra. Esse enorme poder, o da intuição, tem a rapidez de um raio e é composto de visão interior, audição interior, percepção interior e conhecimento interior.

Durante gerações a fio, esses poderes intuitivos transformaram-se em correntes subterrâneas dentro das mulheres, enterradas pelo descrédito e pela falta de uso. No entanto, Jung uma vez observou que nada jamais se perde na psique. Podemos ter a confiança de que tudo o que foi perdido na psique ainda está lá. Portanto, esse repositório da intuição instintiva das mulheres nunca se perdeu realmente, e tudo o que estiver encoberto poderá voltar a ser exposto.

Para compreender uma história dessas, consideramos que todos os seus componentes representam a psique de uma única mulher. Desse modo, todos os aspectos da história pertencem a uma única psique que passa por um processo de iniciação. A iniciação é representada pelo cumprimento de certas tarefas. Nesse conto, há nove tarefas a serem cumpridas pela psique. Elas se concentram na aprendizagem dos hábitos da Velha Mãe Selvagem.

Com a realização dessas tarefas, a intuição da mulher — esse ser sagaz que vai onde a mulher for, que examina todos os aspectos da sua vida e tece comentários sobre a verdade de tudo com precisão e rapidez — é reinstalada na sua psique. O objetivo é um relacionamento do amor e confiança com esse ser a quem chamamos de “a mulher que sabe”, a Mulher Selvagem.

No rito da velha deusa selvagem. Baba Yaga, são as seguintes as etapas da iniciação.




A primeira tarefa — Permitir a morte da mãe-boa-demais


No início do conto, a mãe está morrendo e deixa para a filha um legado importante.


As tarefas psíquicas desse estágio na vida da mulher são as seguintes: aceitar o fato de que a mãe psíquica protetora, sempre vigilante, não é adequada para ser um guia para a futura vida instintiva da pessoa (a mãe-boa-demais morre). Assumir a realidade de estar só, de desenvolver a própria conscientização quanto ao perigo, às intrigas, à política. Tornar-se alerta sozinha, para seu próprio proveito; deixar morrer o que deve morrer. À medida que a mãe-boa-demais morre, a nova mulher nasce.


Na história, o processo de iniciação começa quando a mãe boa e amada morre. Ela não está mais lá para afagar o cabelo de Vasalisa. Na vida de todas nós, como filhas, surge uma hora em que a boa mãe da psique — aquela que nos serviu de modo correto e adequado em tempos passados — transforma-se numa mãe-boa-demais, aquela que, em virtude dos seus valores de proteção, começa a nos impedir de reagir a novos desafios e, portanto, de atingir um desenvolvimento mais profundo.

No processo natural do amadurecimento, a mãe-boa-demais deve se tornar cada vez mais rarefeita, deve definhar até que nos descubramos sós para cuidar de nós mesmas de um novo modo. Embora sempre mantenhamos uma essência do seu carinho, essa transição psíquica natural nos deixa sós num mundo que não é maternal conosco. Mas espere aí. Essa mãe-boa-demais não é só o que ela aparenta ser. Debaixo da coberta, ela tem uma bonequinha para dar à filha.

Ah, existe algo da Mãe Selvagem por baixo dessa criatura. A mãe-boa-demais não pode, no entanto, cumprir plenamente esse papel porque ela é a mãe dos dentesde-leite, a mãe abençoada que todo bebê precisa para dar os primeiros passos no mundo psíquico do amor. Portanto, mesmo que essa mãe-boa-demais não consiga acompanhar a vida da menina a partir de um certo ponto, ela trata bem sua filha. Ela abençoa a menina com uma boneca; e isso, como descobrimos, é na realidade uma grande bênção.

Esse dramático definhamento psicológico da mãe ocorre pela primeira vez quando a menina passa do ninho acolchoado da pré-adolescência para a selva frenética da adolescência. Para algumas meninas, porém, o processo de desenvolver uma mãe interior nova, mais esperta — a mãe chamada intuição — está apenas pela metade nessa época, e as mulheres com uma formação desse tipo vagueiam anos a fio desejando profundamente a experiência completa da iniciação e se ajeitando da melhor maneira possível.

Essa interrupção no processo iniciático da mulher ocorre por vários motivos, como por exemplo quando houve um excesso de problemas psicológicos no início da vida — quando não houve uma presença uniforme da mãe “suficientemente boa” nos primeiros anos de vida. A iniciação pode também ser suspensa ou ficar incompleta por não haver tensão suficiente dentro da psique — a mãe-boa-demais tem a resistência de uma espantosa erva daninha e sobrevive, agitando suas folhas e superprotegendo a filha muito embora o texto diga, “Sai de cena, pelo lado esquerdo, AGORA." Numa situação dessas, as mulheres muitas vezes se sentem tímidas demais para seguir adiante e entrar na mata, oferecendo toda a resistência possível.

Para elas, bem como para outras mulheres adultas a quem os rigores da própria vida isolam e distanciam da sua vida profundamente intuitiva e cuja queixa muitas vezes é a de estarem extremamente cansadas de cuidar de si mesmas, existe uma cura eficaz e sábia. Uma retomada da investigação ou uma nova iniciação irá restabelecer a intuição profunda, independente da idade de uma mulher. E é a intuição profunda que sabe o que é bom para nós, o que precisamos em seguida e chega a esse conhecimento com uma rapidez incrível... bastando que prestemos atenção ao que ela indique.

A iniciação de Vasalisa começa quando ela aprende a deixar morrer o que precisa morrer. Isso significa deixar morrer os valores e atitudes de dentro da psique que não mais sustentam. Os que devem ser examinados com especial atenção são aqueles dogmas há muito aceitos que tornam a vida segura demais, que superprotegem, que fazem a mulher andar com passinhos rápidos em vez de com longas passadas.

A época durante a qual a “mãe positiva” da infância tem sua força reduzida — e na qual suas atitudes também desaparecem — é sempre ocasião para um importante aprendizado. Embora haja um período nas nossas vidas no qual permanecemos acertadamente próximas à mãe protetora (por exemplo, quando ainda somos crianças mesmo, quando de uma recuperação de uma doença ou de um trauma espiritual ou psicológico, ou ainda quando nossa vida corre perigo e o fato de ficar quieta nos manterá a salvo), e embora mantenhamos um vasto estoque de sua ajuda para toda a vida, também chega a hora de mudar de mãe, por assim dizer.

Se ficarmos mais tempo do que o normal com a mãe protetora dentro da nossa psique, vamos nos descobrir impedindo todos os desafios de nos atingirem, o que prejudica o desenvolvimento futuro. Embora eu não esteja de modo algum querendo dizer que uma mulher deva mergulhar numa situação violenta ou torturante, quero dizer, sim, que ela deve fixar para si mesma alguma coisa na vida que ela se disponha a alcançar e, portanto, a assumir riscos para conseguir. E através desse processo que ela aguça seus poderes intuitivos.

Entre os lobos, quando a mãe loba amamenta sua ninhada, ela e eles passam muito tempo na ociosidade. Todos ficam jogados uns sobre os outros numa grande pilha de filhotes. O mundo exterior e o mundo dos desafios estão muito distantes. No entanto, quando a mãe loba afinal ensina os filhotes a caçar e a procurar alimento, ela lhes mostra os dentes a maior parte do tempo; ela os morde exigindo que eles não desistam; ela os empurra se eles não se dispõem a fazer o que ela quer.

E assim, é com o objetivo de atingir um desenvolvimento maior que trocamos a protetora mãe interior, que era tão adequada a nós quando éramos menores, por um outro tipo de mãe, a que vive ainda mais embrenhada nos ermos psíquicos, a que é tanto acompanhante quanto mestra. Ela é uma mãe amorosa, porém enérgica e exigente.

A maioria de nós não quer deixar que a mãe-boa-demais morra só porque chegou sua hora. Embora essa mãe-boa-demais possa não permitir que nossas energias mais intensas venham à tona, é tão bom ficar com ela, tão gostoso, para que ir embora? Com freqüência, ouvimos vozes interiores que nos estimulam a recuar, a permanecer na segurança.

Essas vozes dizem frases como as que se seguem, “Ora, não diga isso”, “Você não pode fazer isso”, “É, você sem dúvida não é filha (amiga, colega) minha, se age assim”, “Tudo é perigoso lá fora”, “Quem sabe o que será de você se insistir em sair desse ninho quentinho” ou “Você só vai se humilhar, sabia?” ou ainda, a sugestão mais insidiosa, “Finja que está se arriscando, mas em segredo continue aqui comigo”.

Todas essas são vozes da mãe-boa-demais assustada e bastante desesperada dentro da psique. Ela não tem como agir de outro modo; ela é o que é. No entanto, se nos fundirmos com a mãe-boa-demais por muito tempo, nossa vida e nossos talentos expressivos recuam para a sombra, e nós definhamos em vez de nos fortalecermos.

E o que é pior, o que ocorre quando se reprime uma energia intensa sem permitir que ela tenha nenhuma vida? Como a panela de mingau mágico nas mãos erradas, ela cresce, cresce e cresce até explodir, derramando tudo o que tinha de bom no chão. Devemos, portanto, ser capazes de ver que, para que a psique intuitiva se fortaleça, a doce protetora precisa ceder seu lugar. Ou, talvez com maior fidelidade à realidade, nós acabemos nos descobrindo expulsas daquele colóquio agradável e aconchegante, não por termos planejado que isso acontecesse, nem por estarmos inteiramente prontas — ninguém jamais está inteiramente pronto — mas porque há algo à nossa espera no início do bosque, e o nosso destino é ir ao seu encontro.

Guillaume Apollinaire escreveu: “Nós os conduzimos até a borda e pedimos que voassem. Eles não arredaram pé. Voem, dissemos. Eles não se mexeram. Nós os empurramos para o abismo. E eles voaram.”

É típico que as mulheres tenham medo de deixar morrer a vida confortável demais, segura demais. Às vezes a mulher se deliciou com a proteção da mãe-boa-demais, e por isso deseja continuar ad infïnitum. Ela precisa estar disposta a sentir alguma ansiedade ocasional, ou então seria melhor que permanecesse no ninho.

Pode ocorrer que uma mulher tenha medo de não ter segurança ou certeza mesmo por um curto período de tempo. Ela apresenta desculpas em quantidade maior do que a dos pêlos de um cachorro. Ela só precisa mergulhar e ficar sem saber o que vem depois. É a única atitude que irá recuperar sua natureza intuitiva. Às vezes, a mulher está tão enredada sendo a mãe-boa-demais de outros adultos que eles se grudaram às suas tetas e não pretendem deixar que ela os abandone. Nesse caso, a mulher tem de afastá-los a coices e continuar assim mesmo.

Como a psique sonhadora procura compensar aquilo que o ego não quer ou não pode reconhecer, entre outras coisas, os sonhos da mulher durante uma luta dessas serão compensatoriamente cheios de perseguições, becos sem saída, automóveis que não pegam, gravidezes interrompidas e outros símbolos de que a vida não prossegue. Nas suas entranhas, a mulher sabe que existe um toque de morte ao insistir em ser aquela pessoa boa demais por muito tempo.

Portanto, o primeiro passo consiste em afrouxar nossa dependência do refulgente arquétipo da mãe-boa-demais-e-sempre-gentil da nossa psique. Largamos a teta e estamos aprendendo a caçar. Há uma mãe selvagem à espera para nos ensinar. Nesse meio-tempo, a segunda tarefa consiste em depender da boneca enquanto aprendemos sua utilização.




A segunda tarefa — Denunciar a natureza sombria


Nessa parte da história, a família da madrasta má e detestável entra no mundo de Vasalisa, tornando sua vida uma desgraça.


São as seguintes as tarefas desse período: aprender ainda com maior conscientização a largar a mãe excessivamente positiva. Descobrir que ser boazinha, que ser gentil e simpática não fará a vida florir. (Vasalisa torna-se escrava, mas isso de nada adianta.) Vivenciar diretamente a própria natureza sombria, especialmente os aspectos exploradores, ciumentos e rejeitadores do self (a madrasta e suas filhas). Incorporar esses aspectos. Criar o melhor relacionamento possível com as piores partes de si mesma. Deixar acumular a tensão entre quem se aprendeu a ser e quem se é realmente. Trabalhar, afinal, no sentido de deixar morrer o velho self para que nasça o novo self intuitivo.


A madrasta e suas filhas representam elementos pouco desenvolvidos mas provocativamente perversos da psique. Trata-se de elementos sombrios, ou seja, de aspectos que são considerados indesejáveis ou inúteis pelo ego, sendo, portanto, relegados às trevas. O material da sombra pode ser muito positivo, já que muitas vezes os talentos da mulher são também empurrados para as trevas. No entanto, o material sombrio negativo também pode ser útil, como veremos, pois quando ele irrompe e nós finalmente identificamos esses aspectos e suas fontes, tornamo-nos mais fortes e mais sábias.

Neste estágio da iniciação, a mulher vê-se acossada por exigências banais da sua psique que a exortam a atender qualquer desejo de qualquer um. A obediência provoca uma descoberta chocante que deve ser registrada por todas as mulheres. Ou seja, a de que ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas. É uma tensão angustiante e que precisa ser suportada, mas a escolha é clara.

Vasalisa é privada dos seus direitos por herdar uma família que não tem condições de compreendê-la ou de apreciá-la, e por ser herdada por essa família. No que lhe diz respeito, ela é desnecessária. A família a odeia e a insulta. Tratam-na como A Estranha, aquela que é indigna de confiança. Nos contos de fadas, o papel do estranho ou o do proscrito é geralmente desempenhado por quem está mais profundamente ligado à natureza conhecedora.

A madrasta e suas filhas podem ser consideradas criaturas inseridas na psique da mulher pela cultura à qual ela pertence. A família da madrasta na psique é diferente da família da alma, por pertencer ao superego, aquele aspecto da psique que é estruturado de acordo com as expectativas — saudáveis ou não — de cada sociedade em particular no que diz respeito às mulheres. Essas camadas e injunções culturais — ou seja, do superego — não são vivenciadas pelas mulheres como se emanassem da psique do Self da alma, mas dão a impressão de vir de algum ponto lá fora, de alguma outra fonte que não é inata. As camadas culturais e do superego podem ser muito positivas ou muito prejudiciais.

A família da madrasta de Vasalisa é um gânglio intrapsíquico que intercepta o nervo da vitalidade. Elas se apresentam como um coro de megeras irredutíveis que provocam a menina. “Você não sabe fazer isso. Você não é boa nisso. Você não tem a coragem necessária. Você é tola, sem graça, vazia. Você não tem tempo. Você só é boa para as coisas simples. Só se permite que você faça esse tanto e nada mais. Desista enquanto ainda pode.” Como Vasalisa ainda não tem consciência plena do seu poder, ela permite esse obstáculo perverso na sua vida. Para que ela reconquiste sua vida, algo de diferente, algo de revigorante precisa acontecer.

O mesmo vale para nós. Podemos ver no enredo que a intuição de Vasalisa a respeito do que está acontecendo à sua volta é extremamente superficial, e que o pai da psique também não percebe o ambiente hostil. Ele é bom demais e não dispõe de desenvolvimento intuitivo próprio. É interessante observar que as filhas que têm pais ingênuos com freqüência levam muito mais tempo para acordar.

Nós também sofremos interceptação quando a madrasta que existe em nós e/ou à nossa volta nos diz que, para começar, não valemos muito e insiste em que nos concentremos nas nossas falhas, em vez de perceber a crueldade que gira ao redor — seja dentro da psique, seja dentro da cultura. Mesmo assim, ver alguma coisa a fundo ou perceber tudo o que possa estar oculto exige intuição bem como força para suportar o que se vê. Como Vasalisa podemos tentar ser gentis quando devíamos ser espertas. Podemos ter sido ensinadas a pôr de lado o insight penetrante com o objetivo de não criar problemas. Contudo, a recompensa por ser boazinha, em circunstâncias repressoras, é a de ser mais maltratada. Embora a mulher sinta que, se for ela mesma, estará se afastando dos outros, é exatamente essa tensão psíquica que é necessária para criar alma e promover mudanças.

É assim que a madrasta e suas filhas conspiram para mandar Vasalisa embora. Elas tramam em segredo. “Entre na floresta, Vasalisa, vá até Baba Yaga e, se você sobreviver, há-há — o que não acontecerá —, então talvez nós a aceitemos de volta." Essa idéia é de importância crítica porque muitas mulheres ficam emperradas no meio desse processo de iniciação — como que suspensas de uma argola pela cintura. Embora exista um predador natural na psique, aquele que diz, “Morra!”, “Droga!’, e “Por que você não desiste?” num estilo bastante automático, a cultura na qual a mulher vive e a família na qual foi criada podem exacerbar dolorosamente aquele aspecto natural e moderado que diz não na psique.

Por exemplo, mulheres criadas em famílias que não demonstram aceitar seus talentos costumam tomar nas mãos empreendimentos extraordinariamente grandes, repetidas vezes, sem saber por que motivo agem assim. Elas acham que precisam ter três doutorados, que precisam ficar penduradas do Monte Everest de cabeça para baixo, ou que devem realizar todo tipo de empreitada perigosa, demorada e dispendiosa para tentar provar às suas famílias que têm valor. “Agora, vocês me aceitam? Não? Está bem (suspiro), vejam só essa.” É claro que os gânglios da família da madrasta nos pertencem, não importa de que modo eles tenham chegado a nós, e é nossa função lidar com eles com energia. Mesmo assim, podemos perceber que, para que continue o trabalho profundo, a tentativa de provar nosso valor ao coro de megeras enciumadas é em vão e, como veremos, na realidade impede a iniciação.

Vasalisa realiza os serviços domésticos de rotina sem se queixar. A submissão sem queixas é de aparente heroísmo, mas na verdade gera cada vez mais pressão e conflito entre as duas naturezas opostas, a boa de mais e a exigente demais. Como o conflito entre o excesso de adaptação e a manutenção da identidade, essa pressão acumula-se para chegar a um fim adequado. A mulher que está dividida entre essas duas atitudes está no caminho certo, mas precisará dar os passos seguintes.

Na história, a família da madrasta suga de tal maneira a força psíquica que, através das suas maquinações, o fogo se extingue. A essa altura, a mulher começa a perder seu norteamento psíquico. Ela pode sentir frio, solidão e uma disposição a fazer qualquer coisa para trazer de volta a luz. É esse exatamente o tranco que a mulher boa demais precisa levar para continuar sua introdução ao seu próprio poder. Poder-se-ia dizer que Vasalisa tem de ir ao encontro da Grande Megera Selvagem porque precisa de um bom susto. Temos de abandonar o coro de detratoras e mergulhar na floresta. Não existe meio que nos permita ir e ficar ao mesmo tempo.

Vasalisa, como nós, precisa de alguma luz de orientação que diferencie para ela o que é bom do que não é. Ela não poderá crescer se ficar parada servindo de saco de pancadas para todos. As mulheres que tentam tornar invisíveis seus sentimentos mais profundos estão se entorpecendo. A luz se extingue. É uma forma dolorosa de vida latente.

Inversamente, e talvez com um toque de perversidade, quando o fogo se apaga, isso ajuda a despertar Vasalisa da sua submissão. Ela é levada a abandonar um velho estilo de vida e a entrar com passos trêmulos numa nova vida, baseada em conhecimentos interiores mais antigos, mais sábios.




A terceira tarefa — Navegar nas trevas


Nessa parte da história, o legado da mãe falecida — a boneca — orienta Vasalisa na travessia da escuridão até a casa de Baba Yaga.


São as seguintes as tarefas psíquicas desse estágio: consentir em se aventurar a penetrar no local da iniciação profunda (entrada na floresta) e começar a experimentar o sentimento numinoso novo e aparentemente perigoso de estar imersa no poder intuitivo. Aprender a desenvolver a sensibilidade ao inconsciente misterioso no que se relaciona ao direcionamento e confiar exclusivamente nos próprios sentidos interiores. Aprender o caminho de volta para a casa da Mãe Selvagem (obedecendo às instruções da boneca). Aprender a nutrir a intuição (alimentar a boneca). Deixar que a mocinha frágil e ingênua morra ainda mais. Transferir o poder para a boneca, ou seja, para a intuição.


A boneca de Vasalisa pertence às provisões da Velha Mãe Selvagem. As bonecas são um dos tesouros simbólicos da natureza instintiva. No caso de Vasalisa, a boneca representa vidacita, a pequena força da vida instintiva que tanto é feroz quanto resistente. Não importa o problema que estejamos enfrentando, ela leva uma vida oculta dentro de nós.

Durante séculos, os seres humanos tiveram a sensação de que das bonecas emanava algo de sagrado e de maná — um pressentimento irresistível e impressionante que influencia as pessoas, fazendo com que mudem espiritualmente. Por exemplo, louva-se a raiz da mandrágora por sua semelhança ao corpo humano, com pernas e braços de raízes e um nó retorcido no lugar da cabeça; diz-se também que ela é provida de grande poder espiritual. Acredita-se que as bonecas sejam impregnadas de vida por quem as criou. Elas são usadas em ritos, rituais, vodus, feitiços de amor e de maldade. Elas são empregadas como símbolos de autoridade e talismãs para lembrar à pessoa da sua própria força.

Os museus do mundo inteiro transbordam de ídolos e imagens feitas de barro, madeira e metais. As imagens dos períodos paleolítico e neolítico são bonecas. As galerias de arte estão repletas de bonecas. Na arte moderna, as múmias envoltas em gaze, em tamanho natural, de Segai, são bonecas. Bonecas típicas de cada etnia abarrotam as lojas de souvenirs nas estações ferroviárias e nos postos de abastecimento das principais rodovias interestaduais. Entre os reis, as bonecas costumam ser dadas desde o passado remoto como sinais de simpatia. Nas igrejas rústicas pelo mundo inteiro há bonecas-santas. As bonecas-santas não só são limpas com regularidade e vestidas em trajes feitos à mão, mas também são "levadas a passear" para que possam observar as condições dos campos e das pessoas e, portanto, interceder nos céus em defesa dos seres humanos.

A boneca representa os homunculi simbólicos, a pequena vida. É o símbolo do numinoso e está sufocado nos seres humanos. Ela é um fac-símile pequeno e luminoso do Self original. Superficialmente, trata-se apenas de uma boneca. Por outro lado, existe nela um pequeno fragmento da alma que possui todo o conhecimento do Self maior da alma. Na boneca está a voz, em miniatura, da velha La Que Sabe, Aquela Que Sabe.

A boneca está relacionada aos símbolos do duende, do elfo, da fada e dos anões. Nos contos de fadas, eles representam uma profunda pulsação de sabedoria dentro da cultura da psique. São eles aquelas criaturas que continuam o trabalho interior e prudente, que são incansáveis. Eles estão trabalhando mesmo quando nós adormecemos, e especialmente quando estamos dormindo, mesmo quando não temos plena consciência do papel que estamos desempenhando.

Dessa forma, a boneca representa o espírito interior das mulheres: a voz da razão, do conhecimento e da conscientização íntima. A boneca assemelha-se ao passarinho dos contos de fadas que vem sussurrar no ouvido da heroína. Ele é quem revela o inimigo oculto e a atitude a tomar diante da situação. Essa é a sabedoria do homunculus, o pequeno ser interior. Ele é a ajuda que nem sempre está visível, mas que está sempre disponível.

Não há bênção maior que uma mãe possa dar à filha do que uma confiança na veracidade da sua própria intuição. A intuição é transmitida de pai para filho da forma mais simples. “Você tem um bom raciocínio. O que você acha que está por trás disso tudo?” Em vez de definir a intuição como alguma peculiaridade irracional e censurável, ela é definida como a fala da verdadeira voz da alma. A intuição prevê a direção mais benéfica a seguir. Ela se autopreserva, capta os motivos e intenções subjacentes e opta pelo que irá provocar o mínimo de fragmentação na psique.

O processo é o mesmo no conto de fadas. A mãe de Vasalisa proporcionou um enorme privilégio à sua filha ao vincular a boneca a Vasalisa. O vínculo com nossa própria intuição propicia uma confiante dependência que resiste a tudo. Ele muda a diretriz da mulher de uma atitude de “o que será, será” para uma de “quero ver tudo o que há para ser visto”.

O que essa intuição selvagem faz pelas mulheres? Como o lobo, a intuição tem garras que abrem as coisas e as sujeitam; ela tem olhos que enxergam através dos escudos da persona; ela tem ouvidos que ouvem sons fora da capacidade de audição do ser humano. Com essas espantosas ferramentas psíquicas, a mulher assume uma consciência animal astuta e até mesmo premonitória, que aprofunda sua feminilidade e aguça sua capacidade de se movimentar com confiança no mundo exterior.

Pois agora Vasalisa está a caminho da conquista da luz para o fogo. Está no escuro, na mata e não pode fazer mais nada a não ser prestar atenção à voz interior que provém da boneca. Ela está aprendendo a confiar nesse relacionamento, e está aprendendo ainda mais uma lição — a alimentar a boneca.

Como alimentar a intuição para que ela seja bem-nutrida e responda aos nossos pedidos de que esquadrinhe as cercanias? Nós a alimentamos de vida — ela se alimenta de vida quando nós prestamos atenção a ela. De que vale uma voz sem um ouvido que a receba? De que vale uma mulher na selva da megalópole ou no cotidiano da vida a não ser que ela possa ouvir a voz de La Que Sabe, Aquela Que Sabe, e nela confiar?

Já ouvi mulheres que disseram estas palavras, se não centenas, então milhares de vezes: “Eu sabia que devia ter seguido minha intuição. Pressenti que devia ou não devia ter feito isso ou aquilo, mas não lhe dei ouvidos.” Nutrimos o profundo self intuitivo ao prestar atenção a ele e ao agir de acordo com sua orientação. Ele é um personagem autônomo, um ser mágico, mais ou menos do tamanho de uma boneca que habita a terra psíquica da mulher interior. Nesse sentido, ele é como os músculos no corpo. Se um músculo não for usado, ele acaba definhando. A intuição é exatamente igual: sem alimento, sem atividade, ela se atrofia.

A alimentação da boneca é um ciclo essencial da Mulher Selvagem — aquela que é a guardiã de tesouros ocultos. Vasalisa alimenta a boneca de duas formas. Primeiro, ao lhe dar um pedacinho de pão — um pouco de vida para essa nova aventura psíquica; e, em segundo lugar, ao encontrar o caminho até a Velha Mãe Selvagem, a Baba Yaga, seguindo o que lhe diz a boneca... A cada curva e a cada bifurcação da estrada, a boneca mostra qual é o caminho para "casa".

O relacionamento entre a boneca e Vasalisa simboliza uma forma de magia empática entre a mulher e a intuição. É isso o que deve passar de mulher para mulher, essa atividade abençoada de se vincular à intuição, de testá-la e de alimentála. Nós, à semelhança de Vasalisa, fortalecemos nossos laços com nossa natureza intuitiva quando prestamos atenção à voz interior a cada curva da estrada. “Devo ir para esse lado ou para o outro? Devo ficar ou partir? Devo resistir ou ser flexível? Devo fugir disso ou correr na sua direção? Essa pessoa, esse acontecimento, essa empreitada, é verdadeira ou falsa?”

O rompimento do vínculo entre a mulher e sua intuição selvagem é muitas vezes encarado erroneamente como se a própria intuição é que estivesse destruída. Não é o que ocorre. Não foi a intuição que se partiu, mas, sim, a bênção matrilinear da intuição, a transmissão da confiança intuitiva de todas as mulheres de uma linhagem, que já se foram, para aquela mulher específica — é esse longo rio de antepassadas que foi represado. A compreensão da mulher da sua sabedoria intuitiva pode ser fraca em conseqüência do rompimento, mas com exercício ela poderá se restaurar e se manifestar em sua plenitude. As bonecas servem de talismãs. Os talismãs são lembretes do que é sentido, mas não visto; do que existe, mas não é de evidência imediata. O numen talismânico da boneca é o que nos recorda, o que nos diz, o que vê adiante de nós. Essa função intuitiva pertence a todas as mulheres. É uma receptividade maciça e fundamental. Não uma receptividade do tipo alardeado no passado pela psicologia tradicional, que é como um recipiente passivo; mas, sim, uma receptividade como a da posse de acesso imediato a uma sabedoria profunda que atinge as mulheres até os próprios ossos.




A quarta tarefa — Encarar a Megera Selvagem


Nessa parte da história, Vasalisa encontra a Megera Selvagem pessoalmente.


As tarefas desse encontro são as seguintes: ser capaz de suportar o rosto apavorante da Deusa Selvagem sem hesitar (topar com a Baba Yaga). Familiarizar-se com o mistério, a estranheza, a “alteridade” do selvagem (residir na casa de Baba Yaga por algum tempo). Adotar nas nossas vidas alguns dos seus valores, tornando-nos, portanto, também um pouco estranhas (comer seus alimentos). Aprender a encarar um poder enorme nos outros e subseqüentemente nosso próprio poder. Permitir que a criança frágil e boazinha em excesso vá definhando ainda mais.


Baba Yaga mora numa casa que descansa sobre pernas de galinha. Ela gira e dá voltas quando bem entende. Nos sonhos, o símbolo da casa reflete a organização do espaço psíquico habitado por uma pessoa, tanto no consciente quanto no inconsciente. Por ironia, se esse fosse um sonho compensatório, a casa excêntrica insinuaria que o sujeito, nesse caso Vasalisa, é por demais insignificante, moderado e precisa sair girando e rodopiando para descobrir como é dançar como uma galinha maluca de vez em quando.

Percebemos, então, que a casa da Yaga pertence ao mundo animal e que Vasalisa precisa desse elemento na sua personalidade. Essa casa de pernas de galinha anda de um lado para o outro e até rodopia numa dança saltitante. Essa casa é um ser vivo, transbordante de entusiasmo, de alegria e vivacidade. É esse o principal alicerce da psique da Mulher Selvagem, uma força de vida selvagem e alegre, na qual as casas dançam, os seres inanimados, como por exemplo os pilões, voam como pássaros, a velha sabe fazer mágica e nada é o que parece, mas na maioria dos casos é melhor do que parecia a princípio.

Vasalisa começou com o que poderíamos chamar de personalidade normal nivelada. É exatamente esse "excesso de normalidade" que vai nos contaminando até que tenhamos uma vida rotineira e sem vida, sem que fosse isso o que realmente pretendêssemos. Essa situação estimula a negligência para com a intuição que, por sua vez, produz a falta de luz na psique. Precisamos, então, fazer alguma coisa; precisamos sair pela mata adentro, ir procurar a mulher apavorante, se não um dia, quando estivermos andando cabisbaixas pela rua, uma tampa de esgoto pode se abrir de repente e nós seremos agarradas por algum ser inconsciente que nos jogará de um lado para o outro como um trapo — de brincadeira ou não; na maioria dos casos, não. Mas com um bom resultado.

A doação da boneca intuitiva pela doce mãe verdadeira não está completa sem as tarefas e as provas apresentadas pela Velha Selvagem. Baba Yaga é a medula da Mulher Selvagem. Descobrimos isso a partir do seu conhecimento de tudo que aconteceu antes. "Ah, sei", diz ela quando Vasalisa chega. “Conheço você e seu pessoal.” Além disso, à semelhança das suas outras encarnações como a Mãe dos Dias e Mãe Nyx (Mãe Noite, a Deusa da Vida-Morte-Vida), a velha Baba Yaga é a guardiã dos seres da terra e dos céus: o Dia, o Sol Nascente e a Noite. Ela os chama de “meu Dia, minha Noite”.

Baba Yaga é assustadora por ser ela própria o poder da aniquilação e o poder da força da vida ao mesmo tempo. Contemplar seu rosto é ver a vagina dentata, olhos de sangue, o recém-nascido perfeito e as asas dos anjos, todos juntos.

Vasalisa está parada ali e aceita a divindade da mãe selvagem, com verrugas e tudo o mais. Uma das facetas mais notáveis da Yaga retratada nessa história está no fato de que, embora ela faça ameaças, ela é justa. Ela não fere Vasalisa enquanto Vasalisa demonstra respeito por ela. A atitude de respeito diante de um poder extremo é uma lição fundamental. A mulher precisa ser capaz de se manter diante do poder, porque em última análise alguma parte desse poder passará às suas mãos. Vasalisa encara Baba Yaga não com atitude obsequiosa, não com arrogância ou cheia de fanfarronice, nem fugindo ou se escondendo. Ela se apresenta com honestidade, exatamente como é.

Muitas mulheres estão se recuperando dos seus complexos de "ser boazinhas", nos quais, independente de como se sentissem, independente do que as acossasse, elas reagiam de uma forma tão doce a ponto de ser praticamente humilhante. Embora elas pudessem sorrir gentis durante o dia, à noite rangiam os dentes como bestas — era a Yaga na sua psique lutando para se expressar.

Esse excesso de adaptação na mulher “boa demais” ocorre muitas vezes quando ela tem um medo desesperado de se ver privada dos seus direitos ou de que a considerem “desnecessária”. Dois dos sonhos de maior impacto que eu já ouvi foram os de uma mulher que decididamente precisava ser menos submissa. No primeiro sonho, ela herdava um álbum de fotografias — um álbum especial com fotos da “Mãe Selvagem”. Ela ficou muito feliz até a semana seguinte quando sonhou que abria um álbum parecido e ali estava uma velha horrível que olhava para ela. A megera tinha os dentes sujos de musgo, e do seu queixo escorria o negro sumo do bétele.

Seu sonho é típico das mulheres que estão se recuperando de ser boas demais. O primeiro sonho demonstra um aspecto da natureza selvagem — o aspecto benévolo e generoso, tudo o que corre bem no seu mundo. No entanto, quando a Mulher Selvagem toda pegajosa lhe é apresentada, bem, epa, uhmm... será que não podíamos adiar um pouco essa parte? A resposta é não.

O inconsciente, ao seu modo brilhante, oferece a quem sonha uma idéia sobre um novo estilo de vida que não se restringe ao sorriso frontal e fácil da mulher "boazinha demais". Encarar o poder selvagem em nós mesmas é ganhar acesso aos inúmeros rostos do feminino oculto. Eles nos pertencem de modo inato e podemos optar por incorporar os que nos forem mais convenientes a qualquer momento.

Nesse drama de iniciação. Baba Yaga é a Mulher Selvagem sob o disfarce da bruxa. À semelhança do termo selvagem, o termo bruxa veio a ser compreendido como um pejorativo, mas antigamente ele era uma designação dada às benzedeiras tanto jovens quanto velhas, sendo que a palavra witch (bruxa, em inglês) deriva do termo wit, que significa sábio. Isso, antes que as religiões monoteístas suplantassem as antigas religiões da Mãe Selvagem. De qualquer maneira, porém, a ogra, a bruxa, a natureza selvagem e quaisquer outras criaturas e aspectos que a cultura considera apavorantes nas psiques das mulheres são exatamente as bênçãos que elas mais precisam resgatar e trazer à superfície.

Boa parte da literatura sobre o tema do poder das mulheres afirma que os homens têm medo desse poder. Sempre tenho vontade de protestar, “Pelo amor de Deus! São tantas as mulheres que têm, elas mesmas, medo do poder das mulheres.” É que as antigas qualidades e forças femininas são imensas e causam espanto. É compreensível que, na primeira vez que se deparam pessoalmente com os Antigos Poderes Selvagens, tanto os homens quanto as mulheres lancem um olhar ansioso e dêem o fora; tudo o que se vê deles são patas que voam e rabos assustados. Se quisermos que um dia os homens cheguem a aprender a suportar esse encontro, então sem sombra de dúvida as mulheres têm de aprender a suportá-lo. Se quisermos que os homens um dia cheguem a compreender as mulheres, elas próprias terão de lhes ensinar as configurações do feminino selvagem. Com essa finalidade, a função de criação dos sonhos na psique traz a Yaga e todo o seu bando para dentro do quarto das mulheres à noite durante os sonhos. Se tivermos sorte, a Yaga deixará suas pegadas grandes e largas no tapete ao lado da nossa cama. Ela virá espionar aquelas que não a conhecem. Se estivermos atrasadas na nossa iniciação, ela se pergunta por que não vimos visitá-la e, para compensar, vem ela mesma nos visitar em sonhos noturnos.

Uma mulher com quem trabalhei sonhava com mulheres usando longas camisolas esfarrapadas, comendo, felizes, coisas que nunca seriam encontradas no cardápio de um restaurante. Outra mulher sonhou com uma velha que tinha o formato de uma banheira antiga com pés que fazia matraquear seus canos e ameaçava estourá-los se a mulher que sonhava não derrubasse uma parede para que a banheira pudesse "ver". Ainda outra mulher sonhou que ela era uma de três velhas cegas, só que ela estava sempre perdendo sua carteira de motorista e tinha sempre de deixar o grupo para ir à procura do documento. Em outras palavras, ela sentia muita dificuldade para se manter identificada com as três Parcas — as forças que orientam a vida e a morte na psique. Com o tempo, no entanto, ela aprendeu a suportar, aprendeu a se manter próxima da sua própria natureza selvagem.

Todas essas criaturas nos sonhos recordam à mulher que sonha a sua identidade elemental: seu Self Yaga, a força enigmática e intensa da mãe da vidamorte-vida. É, estamos afirmando que ser semelhante à Yaga é bom, e que nós precisamos ser capazes de nos acostumar. Ser forte não significa desenvolver os músculos e exercitá-los. Significa, sim, encontrar nossa própria numinosidade sem fugir, convivendo ativamente com a natureza selvagem ao nosso próprio modo. Significa ser capaz de aprender, e ser capaz de agüentar o que sabemos. Significa manter-se firme e viver.




A quinta tarefa — Servir o não-racional


Nessa parte da história, Vasalisa pediu o fogo a Baba Yaga, e a Yaga concorda se Vasalisa fizer, em troca, alguns serviços domésticos para ela.


As tarefas psíquicas desse período de aprendizado são as seguintes: ficar com a Deusa Megera; aclimatar-se às imensas forças selvagens da psique feminina. Chegar a reconhecer o poder dela (o seu poder) e os poderes das purificações interiores; limpar, escolher, alimentar, criar energia e idéias (lavar as roupas da Yaga, cozinhar para ela, limpar sua casa e separar os elementos).


Há não muito tempo, as mulheres se envolviam profundamente com os ritmos da vida e da morte. Elas aspiravam o cheiro acre do ferro no sangue fresco do parto. Elas também lavavam os corpos frios dos mortos. A psique da mulher moderna, especialmente daquelas provenientes de culturas industriais e tecnológicas, é muitas vezes privada dessas experiências básicas e abençoadas de natureza prática e íntima. Existe, porém, um meio para que a não-iniciada participe dos aspectos sensíveis dos ciclos da vida e da morte.

Baba Yaga, a Mãe Selvagem, é a mestra que podemos consultar nesses casos. Ela instrui o ordenamento da casa da alma. Ela infunde uma ordem alternativa no ego, uma ordem em que a magia pode acontecer, a alegria pode ser criada, o apetite permanece intacto, as tarefas são realizadas com prazer. Baba Yaga é o modelo para sermos fiéis ao Self. Ela ensina tanto a morte quanto a renovação.

No conto de fadas, ela ensina a Vasalisa como cuidar da casa psíquica do feminino selvagem. Lavar as roupas da Yaga é um símbolo lendário. Nos países primitivos, e ainda hoje em dia, para lavar a roupa a pessoa descia até o rio e lá fazia as abluções rituais feitas desde o princípio dos tempos para renovar o tecido. Trata-se de um belo símbolo da limpeza e da purificação de toda a imagem da psique.

Na mitologia, tecido é fruto do trabalho das mães da vida-morte-vida. No Oriente, por exemplo, há as Três Parcas: Cloto, Láquesis e Atropos. No Ocidente há a Na' ashjé'ii Asdzáá, a Mulher-aranha, que transmitiu ao povo navajo o dom da tecelagem. Essas mães da vida-morte-vida ensinam às mulheres a sensibilidade ao que deve morrer e ao que deve viver, ao que deve ser retirado com a carda e ao que deve ser aproveitado no tecido. Na história, Baba Yaga encarrega Vasalisa de lavar sua roupa para que esse tecido, esses padrões da deusa da vida-morte-vida, venha à luz, à consciência. Ao lavá-lo, ela o renova.

Lavar alguma coisa é um ritual de purificação atemporal. Ele não representa apenas a purificação. Ele também significa — como o batismo proveniente do latim baptiza — empapar, impregnar com uma força e um mistério numinosos. No conto, a lavagem das roupas é a primeira tarefa. Ela simboliza repor em boas condições aquilo que perdeu a forma com o desgaste. As roupas são como nós, que nos desgastamos cada vez mais até que nossas idéias e valores ficam frouxos com o passar do tempo. A renovação, a revivificação, ocorre na água, na redescoberta daquilo que realmente consideramos verdadeiro, daquilo que realmente consideramos sagrado.

No simbolismo dos arquétipos, os trajes representam a persona, a primeira impressão que o público tem de nós. A persona é uma espécie de camuflagem que permite que os outros conheçam de nós apenas o que nós queremos que eles conheçam, e nada mais. No entanto, existe um significado mais antigo da persona, encontrado em todos os ritos da América Central, um significado bem-conhecido das cantadoras y cuentistas. A persona não é apenas uma máscara atrás da qual a pessoa se esconde, mas, sim, uma presença que encobre a personalidade rotineira. Nesse sentido, a persona ou máscara é um indicador de hierarquia, virtude, caráter e autoridade. A persona é o significante exterior, a manifestação exterior de comando.

Gosto muito dessa tarefa iniciática na qual se exige que a mulher purifique as personas, o manto de autoridade da grande Yaga da floresta. Ao lavar as roupas da Yaga, a própria iniciada verá como são feitas as costuras da persona, que modelos os trajes seguem. Logo, ela mesma terá alguma quantidade dessas personas a serem penduradas no seu armário em meio a outras criadas por ela durante toda a vida.


É fácil imaginar que os símbolos de poder e autoridade da Yaga — suas roupas — tenham as mesmas qualidades que ela tem em termos psicológicos: a força, a resistência. Portanto, lavar sua roupa é uma metáfora através da qual aprendemos a perceber e a adotar essa combinação de qualidades, bem como a saber como separar, consertar e renovar essa qualidades pela purificatio, a lavagem das fibras do ser.

A tarefa seguinte é a de varrer o casebre e o quintal. Nos contos de fadas do leste europeu, as vassouras muitas vezes são feitas de gravetos de árvores e arbustos, e ocasionalmente das raízes de plantas rijas. O trabalho de Vasalisa consiste em passar esse objeto feito de matérias vegetais sobre o piso da casa e do quintal para manter o local limpo de resíduos. A mulher sábia mantém seu ambiente psíquico organizado. Ela consegue isso mantendo a cabeça limpa, mantendo um local limpo para seu trabalho e se dedicando a completar suas idéias e projetos.

Para muitas mulheres, essa tarefa exige que elas separem todos os dias algum tempo para a contemplação, que abram um espaço para habitar que seja nitidamente seu, com papel, canetas, tintas, ferramentas, conversas, tempo, liberdades que se destinam apenas a esse trabalho. Para muitas delas, a psicanálise e outras experiências de mergulho e transformação fornecem o local e o tempo especiais para esse trabalho. Cada mulher tem suas próprias preferências, seu próprio estilo.

Se esse trabalho puder ser realizado no casebre de Baba Yaga, tanto melhor. Mesmo perto do casebre é melhor do que longe dele. Seja como for, a vida selvagem de cada um tem de ser mantida em ordem com regularidade. Não é suficiente dedicar a ela um dia uma vez por ano.

No entanto, como é o casebre da Baba Yaga que Vasalisa varre, como se trata do quintal da Baba Yaga, estamos falando também da manutenção em ordem das idéias incomuns. São idéias que incluem o que é incomum, místico, da alma e amedrontador.

Varrer o ambiente significa não só começar a valorizar a vida não-superficial, mas também cuidar da sua organização. Às vezes, as mulheres se confundem quanto ao trabalho interior da alma e deixam de cuidar da sua arquitetura até que ela seja retomada pela floresta. Aos poucos, o mato vai crescendo e finalmente o local se transforma numa ruína arqueológica escondida na psique. A varredura cíclica evitará que isso ocorra. Quando a mulher dispõe de espaço livre, a natureza selvagem viceja melhor.

Para cozinhar para Baba Yaga, perguntamos literalmente como se alimenta a Baba Yaga da psique, o que se oferece a uma deusa tão selvagem. Em primeiro lugar, para cozinhar para a Yaga, acende-se o fogo — a mulher precisa estar disposta a arder, arder de paixão, arder com as palavras, com as idéias, com o desejo por não importa o quê que ela realmente aprecie. É de fato essa paixão que provoca o cozimento, e as idéias significativas da mulher são o alimento que é preparado. Para cozinhar para a Yaga, daremos um jeito para que nossa vida criativa tenha um fogo constante a aquecê-la.

Seria melhor para a maioria de nós se nos tornássemos mais competentes em vigiar o fogo que está por baixo do nosso trabalho, se observássemos com mais cuidado o processo de cozimento para a nutrição do Self selvagem. Infelizmente, muitas vezes voltamos as costas à panela, ao fogão. Esquecemo-nos de vigiar, esquecemo-nos de acrescentar lenha, esquecemo-nos de mexer. Pensamos erroneamente que o fogo e o ato de cozinhar são parecidos com algumas daquelas resistentes plantas domésticas que sobrevivem sem água oito meses até que um dia não agüentam mais. Não é bem assim. O fogo exige atenção porque é fácil deixar que ele se apague. A Yaga precisa ser alimentada. E vai haver um barulho dos diabos se ela sentir fome.

Portanto, é o cozimento de novas coisas, novos rumos, da dedicação à nossa arte e ao nosso trabalho que alimenta a alma selvagem permanentemente. É isso mesmo o que nutre a Velha Mãe Selvagem e lhe dá sustento na nossa psique. Sem o fogo, nossas grandes idéias, nossos pensamentos originais, nossos anseios e desejos continuam crus, e todo o mundo se sente frustrado. Por outro lado, qualquer coisa que façamos que tenha fogo irá agradar à Mãe Selvagem e manter a todas nós nutridas.

No desenvolvimento das mulheres, todas essas ações ligadas às “prendas domésticas”, cozinhar, lavar, varrer, significam algo além do rotineiro. Todas essas imagens sugerem modos de se pensar na vida da alma, de avaliá-la, alimentá-la, nutri-la, corrigi-la, purificá-la e organizá-la. Vasalisa recebe a iniciação em todos esses aspectos, e sua intuição a ajuda a realizar as tarefas. A natureza intuitiva dispõe da capacidade de estimar as situações num relance, de avaliar num átimo, de eliminar o entulho que cerca uma idéia e de identificar a essência, para lhe infundir vitalidade, cozinhar idéias cruas e preparar alimento para a psique. Vasalisa, através da boneca da intuição, está aprendendo a escolher, a compreender, a manter em ordem, a limpar e a arrumar o ambiente da psique.

Além disso, ela aprende que a Mãe Selvagem exige muito alimento para poder realizar seu trabalho. Não se pode impor a Baba Yaga uma dieta de folha de alface e café preto. Se quisermos nos aproximar da Mãe Selvagem, devemos perceber que ela tem apetite por certos alimentos. Se quisermos ter um relacionamento com o feminino ancestral, precisaremos cozinhar muito.

Com essas tarefas Baba Yaga ensina, e Vasalisa aprende, a não se intimidar diante da escala do grande, do poderoso, do cíclico, do imprevisto, do inesperado, do vasto e do imenso, que é a escala da Natureza, do peculiar, do estranho e do incomum.

Os ciclos das mulheres de acordo com as tarefas de Vasalisa são os seguintes: limpar nosso pensamento, renovando nossos valores com regularidade; eliminar da nossa psique as insignificâncias, varrê-las, purificar nossos estados de pensamento e sentimento com regularidade. Acender a fogueira criativa e cozinhar idéias num ritmo sistemático e especialmente cozinhar muito para alimentar o relacionamento entre nós mesmos e a natureza selvagem.

Vasalisa, através do período passado com a Yaga, acabará incorporando algo do jeito e do estilo da Yaga. E nós também. Cabe a nós, dentro das nossas próprias limitações humanas, seguir seu exemplo. Isso nós aprendemos, apesar de ficarmos assombradas ao mesmo tempo, pois na terra de Baba Yaga há objetos que voam à noite e estão de pé ao nascer do sol, todos convocados pela natureza instintiva selvagem. Há os ossos dos mortos que ainda falam e há os ventos, os fados, os sóis, a lua e o céu, que vivem todos no enorme baú da Yaga. No entanto, ela mantém tudo em ordem. O dia vem depois da noite. Uma estação segue-se à outra. Ela não é aleatória. Ela tem Pé e Cabeça.

Na história, a Yaga descobre que Vasalisa completou todas as tarefas que lhe foram propostas e fica satisfeita, mas também um pouco decepcionada por não poder ralhar com a menina. E assim, só para se certificar de que Vasalisa não ficasse confiante demais Baba Yaga diz mais ou menos o seguinte: "Bem, só porque você conseguiu fazer o serviço uma vez, não quer dizer que você vai conseguir de novo. Por isso tenho mais um dia de tarefas para você. Vamos ver como você se sai, queridinha... se não..."

Mais uma vez, Vasalisa cumpre as tarefas, recorrendo à capacidade da orientação intuitiva, e a Yaga lhe concede a contragosto uma aprovação mal-humorada... daquele tipo que sempre vem de uma mulher mais velha que já viveu muito e viu muitas coisas, que até certo ponto preferia não ter vivido e visto tanto e ao mesmo tempo sente orgulho disso.




A sexta tarefa — Separar isso daquilo


Nessa parte da história, Baba Yaga exige de Vasalisa duas tarefas muito difíceis.


As tarefas psíquicas da mulher são as seguintes: aprender a discriminar meticulosamente, a separar as coisas umas das outras com o melhor discernimento, aprender a fazer distinções sutis (ao escolher o milho mofado do milho são e ao selecionar as sementes de papoula de um monte de estrume). Observar o poder do inconsciente e como ele funciona mesmo quando o ego não está familiarizado (os pares de mãos que aparecem no ar). Aprender mais sobre a vida (o milho) e a morte (as sementes de papoula).


Pede-se a Vasalisa que separe quatro substâncias, o milho mofado do milho são, e as sementes de papoula do estrume. A boneca intuitiva realiza essa separação. Às vezes, esse processo de separação ocorre num nível tão profundo que ele mal chega ao nosso consciente, até que um dia...

A separação relatada nessa história é do tipo que surge quando nos deparamos com um dilema ou com uma pergunta, mas sem que nos ocorram muitas idéias que nos ajudem a resolver a questão. Se a deixamos em paz, no entanto, e voltamos mais tarde a ela, pode ser que uma boa solução esteja à nossa espera ali onde antes não havia nada. Ou “vá dormir, veja com que vai sonhar”, talvez a velha de dois milhões de anos chegue das trevas para visitá-la. Talvez ela traga a solução, ou mostre que a resposta está bem abaixo da sua cama, dentro do seu bolso, num livro ou atrás da sua orelha. É um fenômeno o fato de uma pergunta feita quando a pessoa vai dormir, com a prática, suscitar uma resposta quando a pessoa desperta. Existe algo na psique, algo da boneca selvagem, algo que fica por baixo, acima ou dentro do inconsciente coletivo que separa os materiais enquanto dormimos e sonhamos. E confiar nessa qualidade também faz parte da natureza selvagem.

O milho mofado tem dois significados. Sob a forma de bebida, o milho mofado pode ser usado tanto como inebriante quanto como medicamento. Existe um fungo chamado carvão do milho — um fungo preto bastante peludo que se encontra no milho mofado — que também tem a reputação de ser alucinógeno.

Vários estudiosos aventaram a hipótese de que alucinógenos originados do trigo, da cevada, da papoula ou do milho teriam sido usados nos antigos ritos das deusas elêusicas na Grécia. Além disso, a separação do milho que a Yaga pede à Vasalisa que faça também está relacionada à coleta de plantas medicinais pelas curandeiras, as velhas benzedeiras que ainda hoje podem ser vistas nessa atividade em toda a América Central e do Sul. Vemos os antigos remédios e tratamentos das benzedeiras também na semente de papoula, que é um soporífero e um barbitúrico, assim como no estrume, que foi usado desde tempos remotos e ainda é usado hoje em dia em cataplasmas e como envoltórios, banhos e até mesmo para ingestão sob certas circunstâncias.

Essa é uma das mais belas passagens da história. O milho são, o milho mofado, a semente de papoula e o estrume são todos remanescentes de uma antiga farmácia medicinal. Eles são usados como bálsamos, ungüentos, infusões e cataplasmas para manter outros medicamentos em contato com o corpo e, como metáforas, eles também são remédios para a mente. Alguns nutrem, outros relaxam; alguns causam languidez, outros são estimulantes. São facetas dos ciclos da vida-morte-vida. Baba Yaga não está só pedindo que Vasalisa separe isso daquilo, que aprenda a diferença entre coisas de natureza semelhante — como, por exemplo, o amor verdadeiro do falso, ou a vida revigorante da vida desperdiçada —, mas está pedindo também que Vasalisa distinga um medicamento do outro.

Como os sonhos, que podem ser compreendidos no nível objetivo mas que ainda retêm uma realidade subjetiva, esses elementos alimentícios/medicinais também representam para nós uma orientação simbólica. Como Vasalisa, temos de escolher nossos agentes medicinais psíquicos; temos de escolher muito para compreender que o alimento da psique também é o medicamento da psique, e temos de extrair a verdade, a essência desses elementos para nossa própria nutrição.

Todos esses elementos e tarefas estão transmitindo a Vasalisa ensinamentos sobre a natureza da vida-morte-vida, o toma-lá-dá-cá dos cuidados com a natureza selvagem. Às vezes, com o objetivo de aproximar uma mulher da natureza da vidamorte-vida, eu lhe peço que cuide de um jardim. Seja ele psíquico, seja ele de lama, estrume e verdura, bem como de todas as coisas que cercam, ajudam e atacam. Que ele representa a psique selvagem. O jardim é um vínculo concreto com a vida e a morte. Seria mesmo possível dizer que existe uma religião dos jardins, pois eles nos ensinam profundas lições espirituais e psicológicas. Qualquer coisa que possa acontecer a um jardim pode acontecer à alma e à psique — excesso de água, falta de água, pragas, calor, tempestades, enchentes, invasões, milagres, ressecamento, reverdecimento, bênçãos, cura.

Durante a existência do jardim, a mulher escreve um diário, registrando os sinais de doação de vida e de retirada de vida. Cada registro ajuda a formar uma sopa psíquica. No jardim, adquirimos prática para deixar que pensamentos, idéias, preferências, desejos e até mesmo amores vivam e morram. Plantamos, arrancamos, enterramos. Secamos sementes, fazemos a semeadura, protegemos as plantinhas.

O jardim é uma prática de meditação, a de dizer a hora de alguma coisa morrer. No jardim, podemos ver chegar a hora de desfrutar e a hora da regressão. No jardim, estamos nos movendo de acordo com a inspiração e a expiração da grande natureza selvagem, não contra ela.

Através dessa meditação, reconhecemos que o ciclo da vida-morte-vida é natural. Tanto o lado da mulher selvagem que dá a vida quanto aquele que distribui a morte estão esperando um contato amigo, esperando ser amados para sempre. Nesse processo, nós nos tornamos como a natureza selvagem cíclica. Temos a capacidade de infundir energia e reforçar a vida, sem atrapalhar o que vai morrer.




A sétima tarefa — Perguntar sobre os mistérios


Depois de completar com sucesso as suas tarefas, Vasalisa faz algumas boas perguntas à Yaga.


As perguntas deste estágio são as seguintes: Perguntar e tentar aprender mais a respeito da natureza da vida-morte-vida e de seu funcionamento (Vasalisa pergunta sobre os cavaleiros). Aprender a verdade acerca da capacidade de compreender todos os elementos da natureza selvagem ("saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo").


Todas nós começamos com a pergunta "Quem sou eu, na realidade? Qual é a minha função aqui?" A Yaga nos ensina que somos a vida-morte-vida, que esse é o nosso ciclo, que esse é o nosso insight muito particular do feminino profundo. Quando eu era menina, uma das minhas tias me contou a lenda das “Mulheres das Águas”. Ela disse que às margens de cada lago vivia uma jovem com mãos de velha. Sua primeira função era a de colocar tüz — que posso apenas descrever como “fogoda-alma” — em dúzias de lindos patos de porcelana. Sua segunda função era a de dar corda nas chaves que saíam das costas dos patos. Quando as chaves de dar corda de madeira não giravam mais, os patos caíam e seus corpos se estilhaçavam, ela devia abanar seu avental para as almas no instante da sua liberação, espantando-as para o céu. Sua quarta função consistia em pôr mais tüz em outros lindos patos de porcelana, dar-lhes corda e soltá-los para que vivessem suas vidas...

A história do tüz é uma das mais claras na descrição de como a mãe da vidamorte-vida emprega seu tempo. Em termos psíquicos, a Mãe Nyx, Baba Yaga, as Mulheres das Águas, La Que Sabe e a Mulher Selvagem representam imagens diferentes, idades, disposições e aspectos diferentes do Deus Mãe Selvagem. Infundir tüz nas nossas idéias, nas nossas vidas, nas vidas daqueles que tocamos: é essa a nossa função. Espantar a alma de volta para casa: é essa a nossa função. Soltar uma grande quantidade de centelhas para encher o dia e criar uma luz para que possamos ver o caminho pela noite adentro: é essa a nossa função.

Vasalisa pergunta sobre os homens a cavalo que viu enquanto procurava o caminho até o casebre da Baba Yaga: o homem de branco no cavalo branco, o de vermelho no cavalo vermelho e o de negro no cavalo negro. A Yaga, como Deméter, é uma velha deusa mãe-de-cavalos, associada à força da égua, bem como à sua fecundidade. O casebre de Baba Yaga é uma cocheira para os cavalos multicores e para seus cavaleiros. São eles que puxam o sol para que cruze os céus durante o dia, e que puxam a cortina das trevas para encobrir o céu à noite. Mas não é só isso. Os cavaleiros de negro, de vermelho e de branco simbolizam as antigas cores associadas ao nascimento, à vida e à morte. Essas cores também representam velhas idéias de descida, morte e renascimento — o negro significando a dissolução de antigos valores; o vermelho, o sacrifício de ilusões mantidas anteriormente; e o branco, a nova luz, o novo conhecimento que deriva de ter vivenciado as duas primeiras cores.

Os velhos termos usados nos tempos medievais são nigredo, negro; rubedo, vermelho; albedo, branco. Eles descrevem uma alquimia que segue o trajeto da Mulher Selvagem, o trabalho da mãe da vida-morte-vida. Sem os símbolos do amanhecer, da luz que sobe e da escuridão misteriosa, ela não seria quem ela é. Sem o brotar da esperança nos nossos corações, sem uma luz permanente — não importa se de uma vela ou de um sol — a discriminar isso daquilo nas nossas vidas, sem uma noite a partir da qual tudo pode ser amenizado, a partir da qual tudo pode nascer, nós também não teríamos nada a aproveitar da nossa natureza selvagem.

As cores da história são extremamente preciosas pois cada uma tem seu lado de morte e seu lado de vida. O negro é a cor da lama, da fertilidade, da substância básica na qual semeamos nossas idéias. No entanto, o negro é também a cor da morte, do escurecimento da luz. O negro tem ainda um terceiro aspecto. Ele é a cor associada àquele mundo entre os mundos no qual se baseia La Loba — pois o negro é a cor da descida. O negro é uma promessa de que você logo irá saber algo que antes não sabia.

O vermelho é a cor do sacrifício, da fúria, de matar e de ser morto. No entanto, o vermelho é também a cor da vida vibrante, da emoção dinâmica, da excitação, de eros e do desejo. É uma cor considerada um poderoso medicamento para as enfermidades psíquicas, uma cor que desperta o apetite. No mundo inteiro existe uma figura conhecida como a mãe vermelha. Ela não é tão conhecida quanto a madona ou mãe negra, mas é a guardiã das “coisas que passam”. Suas graças são especialmente procuradas por quem está para dar à luz, pois quem quer que deixe este mundo ou que nele entre precisa atravessar seu rio vermelho. O vermelho é uma promessa de que uma ascensão ou um nascimento está por acontecer.

O branco é a cor do novo, do puro, do imaculado. É também a cor da alma livre do corpo, do espírito desembaraçado do físico. É a cor da nutrição essencial, do leite materno. Por outro lado, ele é a cor dos mortos, daquilo que perdeu seu tom rosado, o rubor da vitalidade. Quando surge o branco, tudo fica, temporariamente, tabula rasa, sem nenhuma inscrição. O branco é uma promessa de que existe nutrição suficiente para que tudo comece de novo.

Além dos cavaleiros, tanto Vasalisa quanto sua boneca estão vestidas de vermelho, branco e preto. Vasalisa e sua boneca são as anlagen da alquimia. Juntas elas fazem com que Vasalisa se torne a futura mãe da vida-morte-vida. Na história há duas epifanias ou doações de vida. A vida de Vasalisa é revitalizada pela boneca e pelo seu encontro com Baba Yaga; conseqüentemente por todas as tarefas que ela consegue cumprir. Há também na história duas mortes: a da mãe-boa-demais e a da família da madrasta. No entanto, percebemos com facilidade que as mortes são convenientes e que, em última análise, elas proporcionam à menina uma vida mais plena.

Assim, essa atitude de deixar morrer, deixar viver, é muito importante. Trata-se do ritmo básico e natural que as mulheres devem compreender... e vivenciar. Captar esse ritmo reduz o medo, pois prevemos o futuro, e os maremotos e marés vazantes que ele reserva. A boneca e a Yaga são as mães selvagens de todas as mulheres. Elas fornecem os penetrantes dons intuitivos a partir do nível pessoal assim como do divino. É esse o ensinamento e o paradoxo extremo da natureza instintiva. É uma espécie de budismo dos lobos. O que é um é dois. O que é dois forma três. O que vive morrerá. O que morre viverá.

É isso o que Baba Yaga quer dizer quando avisa que “saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo”. Há uma quantidade determinada de coisas que todos deveríamos saber em cada idade e cada estágio das nossas vidas. Na história, conhecer o significado das mãos que aparecem e espremem o óleo de milho e da semente de papoula, dois medicamentos que por si sós podem ser revitalizantes e fatais, é querer saber demais. Vasalisa faz perguntas sobre os cavalos, mas não sobre as mãos.

Quando eu era jovem, perguntei a Bulgana Robnovich, uma contadora de história já idosa, do Cáucaso, que vivia numa minúscula comunidade rural russa em Minnesota, a respeito da Baba Yaga. Como ela encarava essa parte da história na qual Vasalisa “simplesmente sabe” que deve parar de fazer perguntas? Ela olhou para mim com aquele olhar sem cílios de um cachorro velho e respondeu. “Existem coisas que ninguém pode saber.” Abriu um sorriso fascinante, cruzou os tornozelos grossos e deu a questão por encerrada.

Tentar compreender o mistério dos criados que aparecem e desaparecem sob a forma de mãos é o mesmo que tentar entender absolutamente o âmago do numinoso. Ao afastar Vasalisa dessa pergunta, a boneca e a Yaga previnem a menina para que não invoque em excesso a força numinosa. E isso é correto porque, embora visitemos o além, não queremos ficar extasiadas e, portanto, presas por lá.

Nessa parte, a Yaga faz alusão a um outro conjunto de ciclos da vida feminina. À medida que a mulher passa por eles, ela compreende cada vez mais esses ritmos femininos interiores, dentre eles os ritmos da criatividade, da parição de filhos psíquicos e talvez de filhos humanos também, os ritmos da solidão, da brincadeira, do descanso, da sexualidade e da caça. Não é preciso forçar nada; a compreensão virá. Algumas coisas precisam ser aceitas como fora do nosso alcance, muito embora elas nos influenciem e nos enriqueçam. Diz um ditado, “Há assuntos que só a Deus pertencem”.

Portanto, com o término das tarefas, "o legado das mães selvagens" é aprofundado, e poderes intuitivos emanam tanto do lado humano quanto do lado espiritual da psique. Agora temos como mestres a boneca de um lado e a Baba Yaga do outro.




A oitava tarefa — De pé nas quatro patas


Baba Yaga sente repulsa pela bênção da mãe falecida e dá a Vasalisa a luz — uma caveira incandescente numa vara — dizendo-lhe que se vá.


As tarefas desta parte da história são as seguintes: assumir um poder imenso de ver e afetar os outros (o recebimento da caveira). Ver as situações da própria vida com essa nova luz (descobrir o caminho de volta à família da madrasta).


Baba Yaga sente repulsa porque Vasalisa foi abençoada pela mãe, ou ela sente repulsa por bênçãos em geral? Na realidade, nem uma alternativa nem outra. Considerando-se acréscimos religiosos cristãos mais recentes, também tem-se a impressão de que nesse ponto a história foi modificada para fazer com que a Yaga parecesse temer o fato de Vasalisa ter sido abençoada, cumprindo, assim, o desejo de patronos da religião mais moderna no sentido de tornar demoníaca essa Velha Mãe Selvagem (tão velha que remonta ao período neolítico) com o objetivo de enaltecer a nova religião.

O texto original da história poderia ter sido alterado para bênção a fim de estimular a conversão religiosa, mas para mim a essência do significado original e arquetípico ainda permanece. Pode-se interpretar a questão da bênção da mãe do seguinte modo: a "Yaga não sente repulsa pelo fato da bênção em si, mas está, sim, irritada com o fato de a bênção ser proveniente da mãe-boa-demais, a doce e gentil queridinha da psique. Se a Yaga for fiel a si mesma, ela não gostará de estar próxima demais, por muito tempo, do lado submisso e recatado da natureza feminina. Embora a Yaga seja capaz de dar o sopro da vida a um filhote de camundongo com uma ternura infinita, ela prefere não se aproximar demais da doçura e da luz. Isso ela deixa nas mãos da psique pessoal. Nesse sentido, pode-se dizer que ela sabe muito bem ficar no seu lugar. Seu lugar é o mundo subterrâneo da psique. O lugar da mãe-boa-demais é o mundo da superfície. Embora a doçura tenha condição de se adaptar ao mundo selvagem, o mundo selvagem não consegue ficar muito tempo restrito aos limites da doçura.

Quando a mulher integra esse aspecto da Yaga, ela deixa de aceitar sem questionamento cada sugestão, cada farpa, qualquer coisa que lhe apareça pela frente. Para conquistar um distanciamento mínimo da carinhosa bênção da mãe-boademais, a mulher aos poucos aprende não só a olhar, mas a fixar os olhos e vigiar com atenção, e cada vez mais a não ter paciência com gente enfadonha.

Tendo criado, através de sua experiência de servir à Yaga, uma capacidade interior que antes não possuía, Vasalisa recebe uma parte do poder selvagem da Deusa Megera. Algumas mulheres receiam que esse profundo conhecimento por meio do instinto e da intuição irá torná-las irresponsáveis ou desmioladas, mas esse é um medo infundado.

Vale o contrário. A falta de intuição, a falta de sensibilidade para com os ciclos ou a negação a seguir o próprio conhecimento dão origem a escolhas que acabam se revelando infelizes e até mesmo desastrosas. Com maior freqüência, esse tipo de conhecimento da Yaga impulsiona as mulheres com movimentos mínimos, e com freqüência ainda maior fornece orientação ao proporcionar imagens nítidas do “que está por trás ou por baixo” das motivações, idéias, atos e palavras dos outros.

Se a psique instintiva disser “Cuidado!”, a mulher deve prestar atenção. Se a intuição profunda disser “Faça isso, faça aquilo, vá por esse lado, pare aqui, siga em frente”, a mulher deverá corrigir seus planos conforme seja necessário. A intuição não é para ser consultada uma vez e depois esquecida. Ela não é descartável. Ela deve ser consultada a cada passo do caminho, quer o trabalho da mulher seja o de enfrentar um demônio interior, quer seja o de completar alguma tarefa no mundo externo.

Examinemos agora a caveira com a luz incandescente. Ela é um símbolo de adoração dos ancestrais. Em versões mais recentes de arqueologia religiosa da história, diz-se que as caveiras nas varas pertencem a seres humanos que a Yaga matou e comeu. No entanto, nas religiões mais antigas que praticavam os ritos de afinidade com os ancestrais, os ossos eram reconhecidos como agentes para a invocação de espíritos, sendo a caveira a parte mais notável.

Nos ritos de afinidade com os ancestrais, acredita-se que o conhecimento especial e atemporal dos velhos de uma comunidade esteja perpetuado nos seus próprios ossos após a morte. Considera-se que a caveira seja a cúpula que abriga um poderoso remanescente da alma que partiu... remanescente este que, se solicitado, pode invocar o espírito do falecido de volta para uma consulta. É fácil imaginar que o Self da alma habite exatamente a catedral óssea da testa, com os olhos como janelas, a boca como a porta e os ouvidos como os ventos.

Portanto, quando a Yaga dá a Vasalisa uma caveira acesa, ela está lhe dando um ícone de velha, uma “ancestral sábia” que deverá carregar pelo resto da vida. Ela está iniciando Vasalisa no legado matrilinear do conhecimento, que permanece íntegro e vicejante nas grutas e desfiladeiros da psique.

Assim, lá vai Vasalisa pela floresta escura adentro com a caveira na vara. Ela perambulou um pouco para chegar até a Yaga mas agora volta para casa com maior segurança, maior certeza, com a postura ereta, voltada para a frente. Essa é a subida a partir da iniciação da intuição profunda. A intuição foi engastada em Vasalisa como uma pedra preciosa no centro de uma coroa. Quando a mulher chegou a esse ponto, ela conseguiu largar a proteção da sua própria mãe-boa-demais interior, aprendeu a esperar a adversidade no mundo externo e a lidar com ela num estilo forte em vez de complexo. Ela percebeu as características sombrias e inibidoras da sua própria madrasta e irmãs emprestadas, bem como a destruição que elas pretendem lançar sobre ela.

Ela conseguiu transpor as trevas ao ouvir sua voz interior e foi capaz de suportar o rosto da Megera, que é um aspecto da sua própria natureza, mas também da poderosa natureza da Mulher Selvagem. Ela está, portanto, capacitada para compreender poderes espantosos e conscientes, dela mesma e de outros. Nada mais de “mas estou com medo”.

Ela prestou serviços à Deusa Megera da psique, alimentou o relacionamento, purificou a persona, manteve limpo o raciocínio. Ela conseguiu conhecer essa selvagem força feminina e seus hábitos. Aprendeu a discriminar, a separar o pensamento dos sentimentos. Aprendeu a reconhecer a imensa força selvagem na sua própria psique.

Ela aprendeu acerca da vida-morte-vida e do dom das mulheres sobre tudo isso. Com esse talento recém-adquirido da Yaga, ela não precisa mais sentir falta de confiança ou de potência. Tendo recebido o legado das mães — a intuição do lado humano da sua natureza e um conhecimento selvagem do lado da psique ligado a La Que Sabe — ela está bem preparada. Segue adiante na vida, com os pés firmes, um atrás do outro, como uma mulher. Ela aglutinou todo o seu poder e agora vê o mundo e sua vida através desse novo enfoque. Vejamos o que acontece quando a mulher se comporta desse modo.




A nona tarefa — Reformular a sombra


Vasalisa volta para casa com a caveira incandescente na vara. Ela quase a joga fora, mas a caveira a tranquiliza. Uma vez de volta à casa, a caveira observa a madrasta e suas filhas, queimando-as até reduzi-las a cinzas. Vasalisa tem uma vida longa e feliz daí em diante.


São as seguintes as tarefas desse estágio: usar a própria visão aguçada (os olhos incandescentes) para reconhecer a sombra negativa da nossa própria psique e/ou os aspectos negativos das pessoas e acontecimentos do mundo exterior bem como para reagir a eles. Reformular as sombras negativas da própria psique com o fogo-da-megera (a perversa família da madrasta, que anteriormente torturava Vasalisa, é reduzida a cinzas).


Vasalisa traz a caveira incandescente numa vara diante de si enquanto atravessa a pé a floresta, e sua boneca indica o caminho de volta. “Vá por aqui, agora por aqui.” Vasalisa, que costumava ser uma tolinha de olhos vidrados, é agora uma mulher que anda com a força à sua frente.

Uma luz ardente emana dos olhos, ouvidos, nariz e boca da caveira. Ela é a representação de todos os processos psíquicos que estão ligados à discriminação. Ela está relacionada aos ritos de afinidade com os ancestrais e, portanto, à memória. Se a Yaga tivesse dado a Vasalisa uma rótula numa vara, isso exigiria uma interpretação simbólica diferente. Se ela tivesse recebido os ossos do carpo, do pescoço ou qualquer outro osso — com exceção, talvez, do da pelve feminina — o significado não seria o mesmo.

Pois a caveira é mais uma representação da intuição — ela não faz mal à Yaga ou a Vasalisa e dispõe de um poder de discriminação exclusivo. Vasalisa agora leva a chama do conhecimento. Ela possui aqueles sentidos aterradores. Ela pode usar à vontade sua visão, audição, olfato e gosto, e ela é dona do seu próprio Self. Ela tem a boneca, a capacidade sensorial da Yaga e agora tem também a caveira incandescente.

Por um momento, Vasalisa sente medo do poder que carrega e pensa em jogar fora a caveira luminosa. Com esse poder formidável às suas ordens, não é de surpreender que ocorra ao seu ego que talvez fosse melhor, mais fácil, mais seguro, livrar-se dessa luz ardente, tendo em vista seu valor e o valor que Vasalisa adquiriu com ela. No entanto, uma voz sobrenatural de dentro da caveira recomenda que ela fique calma e siga em frente. E isso ela consegue fazer.

Cada mulher que resgate sua intuição e seus poderes semelhantes aos da Yaga chega a um ponto em que se sente tentada a se desfazer deles, pois de que adianta ver e saber todas essas coisas? Essa luz da caveira não perdoa. Sob sua claridade, os velhos são idosos; os belos, exuberantes; os bobos, tolos; os embriagados, bêbados; os infiéis, traiçoeiros; e o inacreditável é registrado como um milagre. A luz da caveira vê o que vê. Ela é eterna, e fica sempre ali à frente, refulgindo adiante da mulher, como uma presença que anda um pouco à sua frente, mantendo-a informada do que vai encontrando. É uma patrulha de reconhecimento perpétua.

No entanto quando a pessoa dispõe dessa capacidade de ver e de pressentir, é preciso fazer algo a respeito do que se viu. Possuir uma boa intuição e um poder considerável gera trabalho. Gera trabalho, a princípio, pela observação e compreensão das forças e desequilíbrios negativos tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora. Também provoca o esforço no sentido de reunir a disposição necessária para fazer algo a respeito do que se vê, seja para o bem, ou pelo equilíbrio, seja para permitir que alguma coisa morra.

É verdade, não vou mentir para vocês. É mais fácil jogar fora a luz e ir dormir. É verdade que é bem difícil segurar a luz da caveira à nossa frente em algumas ocasiões. Pois, com ela, vemos nitidamente todos aspectos de nós mesmas e dos outros, tanto os deformados quanto os divinos, além de todas as condições intermediárias.

Mesmo assim, com essa luz, chegam ao nível da consciência os milagres da profunda beleza que existe no mundo e nos seres humanos. Com essa luz penetrante, pode-se ver do outro lado da má ação um coração generoso; pode-se vislumbrar um espírito delicado esmagado sob o ódio; pode-se entender muito em vez de apenas sentir perplexidade. Essa luz pode discriminar camadas distintas da personalidade, das intenções e das motivações nos outros. Ela pode determinar o consciente e o inconsciente em nós mesmas e nos outros. É a varinha de condão do conhecimento. É o espelho no qual se pressente tudo. É a profunda natureza selvagem.

Não obstante, há horas em que suas informações são dolorosas e quase insuportáveis; pois a caveira aponta para o lugar onde se trama a traição, onde a coragem falta àqueles que dizem o contrário. Ela denuncia a inveja oculta como gordura fria por trás de um sorriso de carinho. Ela indica os olhares que são meras máscaras para a aversão. No que diz respeito a nós mesmas, sua luz brilha com a mesma intensidade: ela ilumina nossos tesouros bem como nossas fraquezas.

São esses conhecimentos que são mais difíceis de encarar. É nesse ponto que sempre temos vontade de jogar fora essa maldita perspicácia nossa. É aí que, se não quisermos ignorá-la, sentimos uma força poderosa proveniente do Self, dizendo, “Não me jogue fora. Fique comigo. Vai ser bom para você.”

Enquanto Vasalisa avança floresta adentro, ela sem dúvida está pensando também na família da madrasta, que perversamente a mandou sair para a morte; e, muito embora ela própria tenha um coração generoso, a caveira não é generosa. Sua função é a de ter plena visão. Por isso, quando Vasalisa quer se desfazer dela, sabemos que a menina está pensando na dor provocada por se ter conhecimento de determinadas coisas a respeito de nós mesmas, a respeito dos outros e da natureza do mundo.

Ela chega em casa, e a madrasta e suas filhas lhe dizem que ficaram sem fogo, sem energia, enquanto ela estava fora; que, não importa o que fizessem, não conseguiram acender o fogo. E é exatamente isso o que acontece na psique da mulher quando ela está no poder selvagem. Durante esse período, tudo que a oprimia perde a libido. Ela foi totalmente gasta na boa viagem. Sem a libido, os aspectos mais desagradáveis da psique, aqueles que exploram a vida criativa da mulher ou que a incentivam a desperdiçar seu tempo com insignificâncias, ficam como luvas vazias, sem mãos.

A caveira incandescente começa a fitar a madrasta e suas filhas. Ela não deixa de observá-las com atenção. Será que um aspecto negativo da psique pode ser reduzido a cinzas só por ser alvo de observação constante? Pode. Pode, sim. Mantê-lo sob o olhar inflexível do consciente pode fazer com que se desidrate. Numa das versões da história, os membros da família perversa são torrados até se tornarem quebradiços. Numa outra versão, eles são reduzidos a três carvõezinhos.

Os três carvõezinhos contêm uma imagem muito antiga e interessante. É freqüente a crença de que o início da vida se deu a partir de um pequeno respingo ou pontinho negro. No Antigo Testamento, quando aquele Deus criou o primeiro homem e a primeira mulher, ele os moldou com terra, barro, lama, dependendo da tradução que se leia. Que quantidade de terra? Ninguém diz. Entre outras histórias da criação, porém, o princípio do mundo e dos seus habitantes ocorre muitas vezes a partir do respingo, de um grãozinho, de um único pontinho escuro de alguma coisa.

Nesse sentido, os três carvõezinhos pertencem ao campo da mãe da vidamorte-vida. Eles foram reduzidos praticamente a nada na psique. Estão privados da libido. Agora, algo de novo pode ocorrer. Na maioria dos casos, quando privamos conscientemente algum aspecto psíquico de seiva, ele murcha, e sua energia é liberada ou reformulada.

Existe um outro aspecto nesse esgotamento de energia da família destrutiva. Não podemos manter a conscientização adquirida no encontro com a Deusa Megera e ao transportar a luz incandescente, se convivermos com seres cruéis interna ou externamente. Se estivermos cercadas de pessoas que reviram os olhos e olham para o teto demonstrando repulsa quando estamos por perto, quando falamos, agimos e reagimos, isso é um sinal de que estamos com pessoas que abafam as paixões — as nossas e provavelmente também as delas mesmas. Não são pessoas que liguem para nós, para nosso trabalho, para nossa vida.

A mulher deve escolher seus amigos e companheiros com prudência, pois tanto uns quanto os outros podem se tornar parecidos com a madrasta má e suas filhas perversas. No caso dos companheiros, costumamos investi-los com o poder de um grande mago — de um mágico fantástico. É fácil que isso aconteça, pois, se realmente conquistamos a intimidade, é como se estivéssemos abrindo um ateliê de cristal, um lugar mágico, ou pelo menos é o que nos parece. Um companheiro pode gerar e/ou destruir até mesmo nossos vínculos mais duradouros com nossos próprios ciclos e idéias. O companheiro destrutivo deve ser evitado. Um tipo melhor de companheiro é o que é finamente elaborado de uma grande força psíquica e carne macia. Para a Mulher Selvagem, também ajuda se o companheiro for pouco ligado ao psíquico, uma pessoa que possa "enxergar no fundo" do seu coração.

Quando a Mulher Selvagem tem uma idéia, o amigo ou companheiro jamais dirá "Bem, não sei... me parece mesmo bobo (pretensioso, inexeqüível, dispendioso, etc.)". Um amigo de verdade nunca diria essas palavras. Eles poderiam se expressar de outro modo... "Acho que não entendi. Diga-me como você visualiza a idéia. Diga-me como vai funcionar".

Ter um companheiro/amigo que a considere como uma criatura viva em crescimento, tanto quanto uma árvore cresce a partir do chão, uma planta ornamental dentro de casa ou um roseiral no quintal... ter um companheiro e amigos que a considerem um verdadeiro ser que vive e respira, que é humano mas também composto de elementos delicados, úmidos e mágicos... um companheiro e amigos que apóiem a criatura que existe em você... são essas as pessoas por quem você está procurando. Elas serão amigas da sua alma pela vida afora. A escolha criteriosa de amigos e companheiros, para não falar nos mestres, é de importância crítica para continuar consciente, para continuar intuitiva, para manter o controle sobre a luz incandescente que vê e sabe.

A forma de manter o nosso vínculo com o lado selvagem consiste em nos perguntarmos exatamente o que desejamos. Essa pergunta é a que separa a semente do estrume. Uma das discriminações mais importantes que podemos fazer nesse sentido é a da diferença entre o que acena para nós de fora e o que chama de dentro da nossa alma.

Funciona da seguinte maneira. Imaginemos um bufê com creme chantiliy, salmão, rosquinhas, rosbife, salada de frutas, panquecas com molho, arroz, curry, iogurte e muitos, muitos outros quitutes colocados em mesa após mesa. Imaginemos que examinamos tudo e vemos algumas coisas que nos agradam. Podemos comentar com nossos botões, “Ah! Eu realmente gostaria de comer um pouco daquilo, e disso aqui, e um pouco mais daquele outro prato.”

Alguns homens e mulheres tomam todas as decisões da vida dessa forma. Existe ao nosso redor um universo que acena constantemente, que se insinua nas nossas vidas, despertando e criando o apetite onde antes havia pouco ou nenhum.

Nesse tipo de escolha, optamos por algo só porque aconteceu de ele estar debaixo do nosso nariz naquele exato momento. Não é necessariamente o que queremos, mas é interessante; e, quanto mais examinamos, mais irresistível ele nos parece.

Quando estamos ligados ao self instintivo, à alma do feminino que é natural e selvagem, em vez de examinar o que por acaso esteja em exibição, dizemos a nós mesmas: “Estou com fome de quê?” Sem olhar para nada no mundo externo, nós nos voltamos para dentro e perguntamos: “Do que sinto falta? O que desejo agora?” Perguntas alternativas seriam: “Anseio por ter o quê? Estou morrendo de vontade do quê?” E a resposta costuma vir rápido. “Ah, acho que quero... na verdade o que seria muito gostoso, um pouco disso e daquilo... ah, é, é isso o que eu quero.”

Isso está no bufê? Talvez sim, talvez não. Na maioria dos casos, provavelmente não. Teremos de ir à sua procura por algum tempo, às vezes por muito tempo. No final, porém, iremos encontrar o que procuramos e ficaremos felizes por termos feito sondagens acerca dos nossos anseios mais profundos.

Essa discriminação que Vasalisa aprende ao separar sementes de papoula do estrume e milho mofado do milho são é uma das lições mais difíceis de aprender, já que ela exige ânimo, determinação e dedicação, e muitas vezes implica esperar pelo que se quer. Em nenhuma outra atividade isso fica mais nítido do que na escolha de parceiros e companheiros. Um companheiro não pode ser escolhido como num bufê. O companheiro deve ser escolhido pelo profundo anseio da alma. Escolher só porque algo apetitoso está à sua frente não irá satisfazer nunca a fome do Self da alma. É para isso que serve a intuição. Ela é a mensageira da alma.

Para estender a imagem ainda mais, se lhe for apresentada a oportunidade de comprar uma bicicleta, ou de fazer uma viagem ao Egito para conhecer as pirâmides, você deve colocar a oportunidade de lado por um instante, mergulhar em si mesma e perguntar: “Estou com fome de quê? Do que estou sentindo falta? Talvez esteja querendo uma moto em vez de uma bicicleta. Talvez eu esteja desejando ir visitar minha avó, de idade avançada.” As decisões não precisam ser tão importantes. Às vezes a questão a ser avaliada é a escolha entre dar um passeio e escrever um poema. Seja a questão séria, seja ela banal, a idéia é consultar o self instintivo através de um dos aspectos disponíveis: o Self-boneca, o velho Self-Baba Yaga, a caveira incandescente.

Outra maneira de reforçar o vínculo com a intuição consiste em não permitir que ninguém reprima nossas energias de vida... ou seja, nossas opiniões, pensamentos, idéias, valores, conceitos morais, nossos ideais. Neste mundo existem muito poucos exemplos de certo/errado ou de bom/mau. Existe, porém, o útil e o inútil. Também existem coisas que às vezes são destrutivas, bem como outras que são construtivas. No entanto, como todos sabem, o jardim deve ser revolvido no outono a fim de que se prepare para a primavera. Ele não tem como estar florido o ano inteiro. Devemos, por isso, permitir que nossos ciclos inatos, não uma outra pessoa externa a nós mesmas, determinem as curvas de ascensão e de mergulho na nossa vida.

Existem certas entropias e criações constantes que fazem parte dos nossos ciclos interiores. Nossa tarefa é entrar em sincronia com eles. Como os ventrículos do coração, que se enchem, se esvaziam e se enchem de novo, nós “aprendemos a aprender” o ritmo desse ciclo da vida-morte-vida em vez de nos sentirmos martirizadas por ele. Vamos compará-lo a pular corda. O ritmo já existe. Nós balançamos para a frente e para trás até nos sentirmos no ritmo. Então, entramos. É assim que se faz. Não é nada mais complicado do que isso.

Além do mais, a intuição fornece opções. Quando estamos ligadas ao self instintivo, sempre temos pelo menos quatro escolhas... as duas que se opõem, a intermediária e aquela a que se chega "após uma contemplação mais profunda". Se não estivermos investidas do intuitivo, podemos pensar que temos apenas uma escolha, e com freqüência que ela é indesejável. Sentimos, também, que temos de sofrer a respeito do assunto, de nos submeter e de nos forçar a aceitá-la. Não. Existe um jeito melhor. Preste atenção ao seu ouvido interior, à sua visão interior, ao seu ser interior. Siga-o. Ele sabe o que fazer em seguida.

Um dos aspectos mais notáveis do uso da intuição e da natureza instintiva é que ela causa o surgimento de uma espontaneidade segura. Ser espontânea não quer dizer ser imprudente. Não se trata de uma qualidade do tipo “atacar e falar sem pensar”. As fronteiras válidas ainda são importantes. Scheherazade, por exemplo, tinha uma boa noção dos limites. Ela usou a esperteza para agradar enquanto ao mesmo tempo se posicionava de modo a ser valorizada. Ser verdadeira não significa ser inconseqüente; significa, sim, permitir que La Voz Mitológica se expresse. Consegue-se isso calando o ego por algum tempo e deixando falar à vontade aquilo que deseja se expressar.

Na realidade consensual, todas temos acesso a mãezinhas selvagens em pessoa. Elas são mulheres e, assim que as vemos, algo dentro de nós salta e pensa “mamãe”. Damos uma olhada e sabemos. “Sou da sua prole. Sou sua filha. Ela é minha mãe; minha avó.” No caso do hombre con pechos, o homem com seios, poderíamos pensar, “Ah, vovô” ou “Ah, meu irmão, meu amigo.” Simplesmente sabemos que esse homem é benéfico. (Paradoxalmente, eles são intensamente masculinos e intensamente femininos ao mesmo tempo. Eles são como a fada madrinha, como um mentor, como a mãe que nunca tivemos ou que não tivemos pelo tempo suficiente; é assim um hombre con pechos.)

Todos esses seres humanos poderiam ser chamados de pequenas mães selvagens. Geralmente cada pessoa tem pelo menos uma. Se tivermos sorte, ao longo da vida inteira teremos diversas. Na época em que conhecemos esse tipo de criatura já somos adultas ou pelo menos chegamos ao final da adolescência. Elas são muito diferentes da mãe-boa-demais. As pequenas mães selvagens nos orientam e se enchem de orgulho com nossas realizações. Elas também criticam os bloqueios na nossa vida criativa, sensual, espiritual e intelectual.

Seu objetivo é o de nos ajudar, cuidar da nossa arte e reatar nossos vínculos com os instintos selvagens. Elas orientam a restauração da vida intuitiva. E ficam entusiasmadas quando entramos em contato com a boneca, orgulhosas quando encontramos a Baba Yaga e felizes quando nos vêem voltando com a caveira incandescente à nossa frente.

Já vimos que ser ingênua e boazinha demais é perigoso. Mas talvez você ainda não esteja convencida. Talvez esteja pensando: “Ai, meu Deus, quem quer ser como Vasalisa?” E eu lhe digo que você quer. Você quer ser como Vasalisa, realizar o que ela realizou e seguir pela trilha que ela deixou ao passar, pois é esse o caminho para reter e desenvolver a alma. Porque a Mulher Selvagem é a que ousa, a que cria e a que destrói. Ela é a alma primitiva e engenhosa que possibilita todos os atos e artes da criação. Ela forma uma floresta à nossa volta, e nós começamos a lidar com a vida a partir dessa perspectiva nova e original.

Portanto, aqui no final da reinstalação da iniciação na psique feminina, temos uma jovem mulher com experiências espantosas que aprendeu a seguir seu conhecimento. Ela suportou todas as tarefas para chegar à iniciação plena. Os louros lhe pertencem. Talvez a intuição seja a mais fácil das tarefas, mas mantê-la no consciente, deixando viver o que possa viver e deixando morrer o que tiver de morrer, é de longe a tarefa mais árdua, apesar de tão satisfatória.

Baba Yaga é a mesma Mãe Nyx, a mãe do mundo, uma outra deusa da vidamorte-vida. A deusa da vida-morte-vida é sempre também uma deusa criadora. Ela cria, forma e sopra a vida. Ela está presente para receber a alma quando o alento se foi. Seguindo suas pegadas, tentamos aprender a deixar nascer o que deve nascer, quer todas as pessoas certas estejam ali, quer não. A natureza não pede licença. Floresça e dê à luz sempre que tiver vontade. Como adultas, precisamos muito pouco de licença, mas, sim, de maior criação, de maior estímulo dos ciclos selvagens.

Deixar morrer é o tema do final da história. Vasalisa aprendeu sua lição. Ela cai numa crise histérica quando a caveira faz arder as mulheres perversas? Não. O que deve morrer morre.

Como se toma uma decisão dessas? Sabe-se, simplesmente. La Que Sabé sabe. Peça conselhos a ela. Ela é a Mãe dos Tempos. Nada a surpreende. Ela já viu tudo. Para a maioria das mulheres, deixar morrer não é contra sua natureza, é contra sua criação. Isso pode ser modificado. Todas nós sabemos no fundo de los ovarios quando chegou a hora da vida, quando chegou a hora da morte. Podemos tentar nos enganar por vários motivos, mas sabemos.

Pela luz da caveira incandescente, nós sabemos.




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CAPITULO 3 - Farejando os fatos: O resgate da intuição como iniciação

Clarissa Pínkola Estés; Mulheres que correm com os lobos.

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