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Qual é a utilidade da beleza?


Qual é a utilidade da beleza?



“Toda arte é absolutamente inútil”, disse Oscar Wilde, que havia notado isto como um elogio.

Para Wilde, a beleza tem um valor maior do que a utilidade.

Platão, escrevendo em Atenas no séc IV a.C, argumentou que a beleza é o sinal de uma outra ordem, superior.

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O culto à utilidade assola o nosso mundo, minando até mesmo as coisas contra as quais as pessoas têm tentado erguer barreiras. Parte do problema é o domínio da tecnologia que nos influencia a pensar que todo o conhecimento e todas as descobertas dizem respeito a modos de manipular o mundo e o moldar a nossos propósitos. Mas há também o contemplar o mundo, encontrar nossa paz e consolo nele. (...)

Todas as coisas mais importantes da vida são inúteis: amor, amizade, devoção, paz – essas são coisas que apreciamos pelo que são e não pelo uso que podemos fazer delas. Sim, nós precisamos de coisas inúteis uma vez que precisamos aprender como encontrar valores intrínsecos. E então o mundo tem um significado para nós e não apenas uma utilidade.

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Pare de usar as coisas, de querer explicá-las, em vez disso, contemple-as.

Assim entenderemos o que elas significam.

A mensagem da flor é a flor.


Somente deixando nossos interesses de lado é que encontraremos a verdade real da flor.


Qualquer um que dependa de uma tese para justificar a sua arte, não é um artista.

Vendo as coisas por este lado, descobrimos sua beleza.

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Nós não fazemos tudo pela beleza. Isso é impraticável e até ofensivo, porque um grande número de pessoas não consegue viver suas vidas desta forma.

Mas, em todos nós existe o desejo de fazer as coisas se encaixarem, de fazer as coisas se harmonizarem.

Você entra em uma casa em que você foi convidado para jantar. A maneira com que você se apresenta, a sua linguagem, os seus gestos são pensados para se encaixarem com aquelas pessoas que estão lhe recebendo. Você pode não conhecer isso de uma forma adequada, mas você coloca a mesa de um jeito que pareça acolhedor. Isso é algo que os seres humanos fazem de forma espontânea e é parte do sentido da vida. Existe um desejo muito profundo por essa beleza, que não é apenas a convivência com nossos vizinhos.

Esta beleza reflete um sentido muito primitivo. Trata-se de outra dimensão do ser. Nós não notamos essa força necessariamente nas nossas vidas cotidianas e nós certamente não temos palavras para descrevê-la. Mas, de vez em quando, nós paramos para reconhecer que temos uma janela para o transcendente. Em nossas vidas cotidianas, ordinárias, essas pequenas janelas são absolutamente vitais. A beleza é uma forma de nos encontrarmos, se perdemos a beleza, perdemos o sentido da vida.

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Sempre que você detectar a beleza, a amabilidade, o reconhecimento do que existe de bom nas coisas simples da sua vida, procure pelo pano de fundo de tudo isso dentro de si mesmo. Mas não busque esse segundo plano como se estivesse tentando encontrar alguma coisa. Você não conseguirá identificá-lo com precisão e dizer: “Agora eu o tenho.” Também não poderá prendê-lo com a mente e defini-lo de algum jeito. Ele é como o céu sem nuvens. Não tem forma. É espaço – é silêncio, a doçura do Ser e infinitamente mais do que estas palavras, que podem apenas sugerir o que ele é. Quando você for capaz de senti-lo diretamente em seu interior, ele se aprofundará. Então, toda vez que você valorizar algo simples – um som, uma imagem, um toque –, nos momentos em que vir a beleza e sempre que tiver um sentimento de benevolência em relação ao outro, sentirá a amplitude interior que é a fonte e o pano de fundo dessas vivências.



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E um poeta disse: “Fale-nos da beleza”.


E ele respondeu:

“Onde deverão buscar a beleza, e como a poderão encontrar, a menos que ela mesma seja o seu caminho e o seu guia? E como poderão falar acerca dela, a menos que ela mesma seja a tecelã de suas palavras?


Os feridos e os ofendidos dizem,

“A beleza é amável e gentil. Como uma jovem mãe, um tanto encabulada em sua própria glória, ela caminha entre nós”.

E os apaixonados dizem,

“Não, a beleza é uma força terrível e poderosa. Como uma tempestade, ela sacode a terra abaixo e os céus acima”.


Os cansados e os gastos dizem,

“A beleza é um sussurro suave. Ela nos fala em nosso próprio espírito. Sua voz cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que tremula por temor da sombra”.

Mas os desassossegados dizem,

“Nós ouvimos os seus gritos ecoando pelas montanhas, E com eles vinham o som dos cascos dos cavalos, o bater das asas das aves e o rugido dos leões”.


À noite, os guardas da cidade dizem,

“A beleza surgirá do leste com a alvorada”.

E ao meio-dia, os trabalhadores e os caminhantes dizem,

“Nós a temos visto se inclinando sobre a terra, das janelas do poente”.


No inverno, os que estão presos na neve dizem,

“Ela chegará junto com a primavera, pulando sobre as colinas”.

E no calor do verão os que fazem a colheita dizem,

“Nós a vimos dançar com as folhas do outono, e havia flocos de neve entre seus cabelos”.


Todas essas coisas vocês disseram da beleza. Mas na realidade não falaram dela, e sim de seus desejos não satisfeitos.

E a beleza não é um desejo, mas um êxtase. Não é uma boca sedenta ou uma mão vazia estendida, Mas, antes, um coração inflamado e uma alma encantada.

Ela não é a imagem que gostariam de ver nem a canção que desejam ouvir, Mas, antes, a imagem que contemplam com os olhos fechados

e a canção que ouvem com os ouvidos tapados.

Não é a seiva por baixo da casca enrugada, nem uma asa atada a uma garra, Mas, antes, um pomar sempre florescendo e uma revoada eterna de anjos.


(...) A beleza é a Vida quando desvela sua face sagrada. Mas vocês são a Vida, e também o seu véu.

A beleza é a eternidade olhando para si mesma em um espelho.

Mas vocês são a eternidade, e também o espelho.”



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Gibran Khalil Gibran

(“O Profeta”)

traduzido do original em inglês por Rafael Arrais.




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Ref: R. Scruton; Eckhart Tolle; Khalil Gibran.

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