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Seja isto uma árvore, ou quem sabe, o amor



Mandei hoje cortar a araucária do

jardim.

_____Plantei-a ali há cerca de dezesseis

anos. Tinha um palmo de altura, como os

companheiros da Branca de Neve. Cresceu,

agigantou-se, ultrapassou o telhado da casa,

impregnou-se de azul.

_____Há dias, pelo S. João, pousou-lhe nos

ramos ásperos, penetrantes como agulhas,

um balão aceso. Ficou chamuscada, perdeu

a compostura, a elegância. Há nela, agora,

alguns ramos secos. Também em mim algo

vai secando, morrendo.

_____Mandei hoje cortar a araucária do

Jardim…


No mesmo dia


_____Adiei a decisão. Adiei-a, não: anulei-a.

Há feridas que não saram, males para os

quais não há remédio.

_____Ao subir, há pouco, ao terraço, reparei,

ajudado pelos olhos do Frederico e pela sua

sensibilidade ecológica, naqueles ramos

verdes a roçar as telhas. E recuei, então.

Emendei o gesto.

Cresce, minha araucária, cresce! De mim

não se dirá que tirei a vida a quem dei.


__

Albano Martins

(Assim São As Algas)




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