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Ser o que se é

Vai devagar, não corras,


pois aonde tens que ir é só a ti!



Vai devagar, não corras,


que a menina do teu eu, recém-nascida


eterna,


não poderá seguir-te!



(Poema adaptado de J.R. Jimenez)

As árvores sempre foram para mim os oradores mais convincentes. Eu as venero entre suas famílias e povos, florestas e bosques, mais ainda quando estão a sós. São como seres solitários, mas não como eremitas que se isolaram por alguma fraqueza, mas sim como os grandes homens solitários: como Beethoven e Nietzsche. Em suas copas cicia o mundo, suas raízes jazem no infinito. Solitárias, elas não se perdem, com toda a força do seu ser procuram a única meta, preencher a sua própria lei desenvolvendo suas formas e se auto-representando. Não existe nada mais sagrado, mais exemplar do que uma bela e forte árvore.


Quando uma árvore é cortada e seu ferimento mortal fica exposto ao sol, é possível ler no disco de seu toco, que ao mesmo tempo lhe serve como lápide, toda a sua história. Nos anéis, seus anos, suas cicatrizes, todos os seus esforços, sofrimentos, doenças, toda a felicidade e prosperidade, verdadeiramente escritas. Tempos de escassez entremeados nos tempos fartos, os ataques que suportou e as tempestades a que resistiu. Todo jovem camponês conhece a madeira mais forte e nobre pelos seus anéis de vida mais unidos, e que é lá no alto das montanhas, desafiando os mais constantes perigos, que crescem os troncos mais exemplares, mais fortes e resistentes.


Árvores são santuários. Quem souber falar com elas, ouvi-las, esse conhece a verdade. Elas não pregam lições e preceitos, e sim, isoladamente, a primária lei da vida.


Uma árvore diz: trago em mim uma luz, um pensamento, um âmago, pois eu sou a vida da vida eterna. O risco de meu concebimento é único, único na textura e veias de minha pele, único no menor dos meus ramos, na menor das cicatrizes. Eu fui feita para dar forma e revelar o eterno no menor dos meus especiais detalhes.


Uma árvore diz: minha força é confiável. Eu nada sei sobre meus pais, nem dos milhares de filhos que ano a ano brotam de mim. Eu trago à vida os segredos contidos nas minhas sementes à sua última finalidade e nada mais me preocupa. Eu tenho a certeza de ter Deus em mim, de minha missão sagrada e dessa confiança vivo.


Quando estamos tristes, sem mais nenhuma vontade de aturar a vida, então uma árvore poderá falar conosco. Ela dirá: Calma, calma! Olhe-me! Viver não é fácil, mas nem tão difícil, pensamentos assim são criancice, cale, deixe que Deus fale em você. Você treme porque seu caminho lhe afasta da mãe e da pátria, mas cada passo e cada dia o levarão novamente ao seu reencontro. A pátria não está lá, nem cá, está em você ou em lugar nenhum. A nostalgia de um viajante corta o meu coração quando à noite ouço as árvores sussurrarem. Escutando longamente e, quieto, descubro a essência dessa saudade, que como poderia parecer não é uma fuga do sofrimento, senão a nostalgia por uma pátria, a saudade de uma mãe ou a procura de novos símbolos para a vida. É a saudade que nos guia para casa. Todo caminho leva para casa, qualquer passo é um nascer, um morrer, qualquer sepultura uma mãe. É assim, quando à noite sentimos medo de nossos pensamentos infantis, que a árvore cicia.


As árvores têm duradouros pensamentos e restauradores respirares. Quando aprendemos a ouvi-las, a brevidade, a rapidez, a inocência precipitada dos nossos pensamentos encontram incomparável alegria. Quem aprende a ouvir as árvores, acaba querendo ser como árvore: não buscará ser outra coisa sendo o que realmente é. Aí está o Lar. E isso é a pátria, a felicidade.


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Hermann Hesse

(Caminhada)

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